Um manifesto pelo progresso social

Por: Elisa Reis

Por que publicar um Manifesto pelo Progresso Social quando o mundo parece envolto em profecias distópicas, se não já imerso nelas? Antes de mais nada porque, apesar dos sinais contrários no presente, os autores dele acreditam, como sinaliza o Prêmio Nobel de economia Amartya Sen, que prefacia o livro, a justiça social pode ser cultivada.

Um manifesto pelo progresso social
Um manifesto pelo progresso social

Por que o otimismo que marcou a passagem dos séculos 20 para 21 cedeu lugar a incertezas e medo? As expectativas positivas sobre o avanço de conquistas democráticas se desvanecem ante o agravamento da desigualdade econômica, o declínio da coesão social, as evidências cada vez mais contundentes da crise ambiental. Mesmo em democracias maduras, os efeitos duradouros da crise financeira de 2008, a ascensão de neopopulismos, e dos movimentos xenófobos colocam em dúvida conquistas e promessas civilizatórias. A recente pandemia e a continuidade da guerra na Ucrânia agravam o pessimismo e o sentimento de desesperança quanto ao futuro.

Embora tendo em conta o cenário sombrio do presente, o objetivo dos autores do livro não é oferecer uma utopia como antídoto. Longe disso, o propósito é argumentar de forma simples e clara que é possível trabalhar de forma realista para construir um mundo melhor que o que temos. O livro é um desdobramento do Painel Internacional sobre Progresso Social, iniciativa que, inspirada no Painel Internacional de Mudança Climática, envolveu cerca de trezentos cientistas sociais de todo o mundo para empreender um balanço crítico sobre os avanços, retrocessos, e riscos que o mundo experimentou nas últimas cinco décadas. Desse painel resultou, em 2018, a publicação de um extenso relatório[1] e, posteriormente, do Manifesto que, vai além do diagnóstico oferecido pelo Painel, discutindo mudanças que poderiam contribuir para um futuro mais promissor. A ideia não era propor receitas prontas para consertar o mundo, mas sim fazer uso de conhecimentos acumulados pelas ciências sociais para, junto com os leitores, refletir sobre as noções de futuro e progresso que podemos e devemos compartilhar.

Como a história nos mostra, a ideia de progresso, herdeira do Iluminismo, não está isenta de trágicas distorções. Entretanto, a aposta nela como ideal normativo permanece crucial à busca por um mundo sustentável e mais justo. Apesar dos muitos revezes, é ainda a possibilidade de progresso, a busca por um mundo melhor, que confere às ciências sociais e naturais seu valor moral. As ciências sociais, como disciplinas históricas, não podem se render acriticamente ao pessimismo do presente. Olhando para os últimos 50 anos, é incontestável que a humanidade experimentou enormes avanços em suas condições de vida. Mas, também é verdade que há muito a ser feito, pois são multidões os que permanecem excluídos do progresso, privados de direitos básicos, e de recursos para reagir. Além disso, os riscos existenciais são cada vez mais visíveis, desastres nos assombram. Como Relatório do Painel Internacional sobre o Progresso Social ressaltou, a humanidade vê crescer cada vez mais a capacidade transformadoras da ciência e da tecnologia, mas é como se antevisse do cume da montanha do progresso, o abismo a seus pés. As reações a esta situação paradoxal muitas vezes levam as pessoas a se refugiarem no fatalismo, a apostarem em filosofias cíclicas da história, ou simplesmente aceitarem passivamente a desesperança.

Entretanto, como atores históricos, não podemos ignorar que nossas escolhas contingentes são parte importante da explicação de como as coisas ocorreram desta ou daquela forma em circunstâncias dadas, e como poderia ter sido diferente. Os parâmetros de nossas escolhas são os limites e oportunidades concretas com que nos defrontamos a todo momento ao fazer escolhas concretas que favorecem ou prejudicam a liberdade e a responsabilidade que nos confere nossa condição humana. Resumindo, os processos sociais não são fatalidades inerentes à História, mas sim resultados da interação entre condições estruturais, oportunidades contingentes, e escolhas baseadas em interesses ideais e materiais. O capítulo inicial do livro elabora essas ideias e deixa claro que além de apresentar fatos e análises de caráter científico, os autores do Manifesto pelo Progresso Social compartilham uma noção valorativa comum quanto ao que deveria constituir um mundo melhor, insistindo, porém, que esse valor deve ser continuamente objeto de discussão e deliberação coletiva. Os diversos capítulos abordam aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais, discutindo tanto aspectos negativos como positivos com que conta a sociedade para afastar os riscos coletivos e avançar na direção de uma mudança coerente com a busca de uma sociedade melhor para todos.

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[1] Rethinking Society for the Twenty First Century, Report of the International Panel on Social Progress, Cambridge University Press, 3 vols., 2018.


Elisa Reis é professora de Sociologia Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade (Nied). Sua pesquisa enfoca as percepções da elite sobre a pobreza e a desigualdade e as mudanças contemporâneas nos padrões de interação entre o Estado, o mercado e a sociedade. Possui diversas publicações em periódicos brasileiros e estrangeiros. É uma das autoras do livro de Michele Lamont et al., Getting Respect, Responding to Stigma and Discrimination in the United States, Brazil and Israel (2016).