Sinodalidade - O jeito de ser Igreja, comunhão e participação

Por: Agenor Brighenti

 

A sinodalidade está na ordem do dia. Não é uma questão de moda, muito menos uma bandeira levantada pelo Papa Francisco, ainda que tenha sido ele quem tem se oposto abertamente a uma Igreja piramidal. A sinodalidade é uma questão tão velha quanto a Igreja, pois, por natureza a Igreja é sinodal - o Povo de Deus constituído pelo batismo, na corresponsabilidade de todos por tudo e na igual dignidade de todos os ministérios. 

 

O imperativo de uma Igreja sinodal

“Sínodo”, que quer dizer “caminhar juntos”. Como disse São João Crisóstomo, sinodalidade é o próprio nome da Igreja. A palavra – ekklesía/assembleia – que nomeia a Igreja de Jesus, São Paulo foi buscá-la no termo que designava a democracia grega, mas com a grande diferença que naquela assembleia não participavam as mulheres e os escravos. Já na assembleia/ecclesia dos cristãos, Paulo deixa claro, não pode haver acepção de pessoas, tanto que no primeiro milênio reinou na Igreja o princípio – “o que diz respeito a todos dever ser discernido e decidido por todos”. 

Infelizmente, não foi este o testemunho que a Igreja deu ao mundo, sobretudo no segundo milênio. E, nos últimos tempos, apesar da renovação do Vaticano II, que resgatou a Igreja sinodal do primeiro milênio, a imagem da Igreja é ainda a de uma instituição centralizadora e autoritária, com pouca voz e vez aos leigos, em particular às mulheres, ou seja, uma instituição clericalista e piramidal.  Tendo passado mais de meio século da renovação do Concílio, continua a meio caminho a difícil tarefa de implementação de uma Igreja “comunhão e participação” (Puebla). Por isso, mais do que nunca, apresenta-se o imperativo de uma Igreja sinodal, pautada pelo exercício do sensus fidelium, tal como o Vaticano II, em sua volta às fontes, propôs há mais de meio século, sem que tenhamos avançado muito. 

Um grande desafio para uma Igreja sinodal é a passagem de uma Igreja configurada no binômio clero-leigos para comunidade-ministérios. Na concepção de Igreja do Vaticano II, há um único gênero de cristãos – os batizados. É do Batismo que derivam todos os ministérios, incluídos os ministérios ordenados. Afirma o Concílio que há uma “radical igualdade em dignidade de todos os ministérios”, pois todos se inserem no seio de uma Igreja toda ela ministerial. Como tem dito o Papa Francisco na Querida Amazônia e na Praedicate Evangelium, os ministros ordenados não têm o monopólio do poder na Igreja. O poder na Igreja, que é serviço, não deriva do sacramento da Ordem, emana do sacramento do Batismo. Daí a exigência, afirmada pela Querida Amazônia, da implementação de “uma cultura eclesial marcadamente laical” (QAm 94). É a condição para o exercício do sensus fidelium, uma Igreja pautada pelo consenso na fé de todo o Povo de Deus.

Um segundo grande desafio, intrinsecamente ligado ao primeiro, é uma Igreja comunhão, que só existe quando as relações se dão de forma horizontal, em pé da “igualdade em dignidade” de todos os ministérios, que brotam do Batismo.  E, mais que isso, como a Igreja existe para “tornar presente o Reino de Deus no mundo” (EG 176), a comunhão precisa estender-se para além de suas fronteiras. Uma Igreja sinodal é uma Igreja promotora da comunhão de toda a humanidade, em uma fraternidade universal – fratelli tutti.

Por sua vez, a comunhão só acontece na participação efetiva de cada batizado na comunidade eclesial e na sociedade. De modo especial, a participação acontece pela presença nos processos de discernimento comunitário e tomada de decisões. Mediações imprescindíveis para fazer acontecer a participação, expressão da corresponsabilidade de todos os batizados, são a assembleia e o conselho de pastoral, que deveriam estar operando em todos os âmbitos eclesiais. Para uma Igreja sinodal, não pode haver nenhuma comunidade eclesial sem assembleia e conselho de pastoral, assim como sem equipes de coordenação, com a eleição dos que presidem estes organismos, para períodos de tempo determinados. 

Finalmente, em uma Igreja sinodal, a comunhão e a participação são para a missão. A Igreja existe para evangelizar. Ao contrário de uma Igreja autorreferencial, fechada sobre si mesma, restrita a uma “pastoral de conservação” dos supostamente evangelizados, a Igreja é essencialmente missionária. Como promotora do Reino de Deus no mundo, precisa ser uma Igreja comunidade de pequenas comunidades missionárias inseridas na sociedade, como fermento na massa. 

 

A estrutura da obra

Esta obra faz uma abordagem da sinodalidade em seus diversos aspectos e componentes, em dez capítulos, que podem ser agrupados em três momentos. 

Num primeiro momento, em três capítulos, situa-se a sinodalidade no atual contexto eclesial mostra-se que com o revés de um processo de involução eclesial ainda não estancado, a sinodalidade continua sendo uma tarefa pendente (cap. 1); aborda-se os principais fatores de estrangulamento da sinodalidade na Igreja hoje e o imperativo de uma reforma das estruturas eclesiais (cap. 2); e apresenta-se uma panorâmica do itinerário da sinodalidade na América Latina, do Concílio Plenário Latino-americano à 1ª. Assembleia Eclesial da Igreja no continente (cap. 3). 

Num segundo momento, explicita-se os fundamentos teológicos da sinodalidade: o imperativo da superação de um cristianismo sacerdotizado (cap. 4); a sinodalidade como uma cultura eclesial marcadamente laical (cap. 5); e a sinodalidade como a comunhão das Igrejas Locais, em uma Igreja de Igrejas (cap.6). 

Num terceiro momento, se busca apresentar as mediações para uma operacionalização da sinodalidade nos diferentes âmbitos da Igreja: em âmbito nacional, a necessidade de uma sinodalização das Conferências Episcopais Nacionais e Continentais (cap. 7); o discernimento comunitário e a tomada de decisões no seio de comunidades eclesiais enquanto sujeitos na Igreja (cap. 8); a inserção do teólogo e da teologia no processo sinodal para um verdadeiro exercício do sensus fidelium (cap. 9); terminando a obra com questões metodológicas e pastorais relativas à projeção e gestão da pastoral de forma sinodal (cap. X). 

 

 


Agenor Brighenti é presbítero da Diocese de Tubarão,SC, doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina/Bélgica. Foi diretor acadêmico do Instituto Teológico-Pastoral do Celam, professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, professor do Programa de Pós-graduação em Teologia da PUC do Paraná e professor-convidado da Universidade Pontifícia do México. Foi perito do Celam na Conferência de Santo Domingo (1992), da CNBB em Aparecida (2007) e do Sínodo da Amazônia em Roma (2019). É membro da Equipe de Reflexão Teológico-pastoral do Celam, da Comissão Teológica do Sínodo dos Bispos (2021-2024) e do Grupo de Teologia Ibero-americana e pesquisador do CNPq. Autor de duas dezenas de livros e de duas centenas de artigos, publicados no país e no exterior.