Orí Àṣẹ - A dimensão arquetípica dos Orixás

Por: Virginia Sant Anna

 

Òrìṣà kì í gba ènìyàn tí Orí wọn kò bá jẹ́!

(Nenhum Orixá toma uma pessoa se sua Cabeça não permitir)

 

Orí é o primeiro Orixá, a cabeça, também no sentido físico, fundamental, lugar que carrega memórias, escolhas e valores. Quando o Ori permite abrigar os Orixás, nos conduzindo e para tanto, deve ser alimentado com boas ações, bons pensamentos e assim criar boas emoções. Em consonância com Okan, o coração e a consciência, tem-se Ori Irê, a sabedoria, a capacidade de imaginar, refletir, de discernimento sobre as coisas que estão no mundo. Em Ori Irê encontramos a autorresponsabilidade em tudo que acontece, como copartícipe no bem viver coletivo. No modo de viver dos povos da África subsaariana, os iorubá, tudo tem uma razão de ser, nada é aleatório e, o que conduz os seres denominados humanos, são as memórias e vivências que ficam amalgamadas para direcionamento na e da vida. Esta amálgama é o tecido do Ori, o Àṣẹ (Axé), poder e magia, que se fortalecem e se propagam, se tornam um ancestral e, por assim dizer, se tornam arquetípicos. Vivências e memórias de toda a humanidade, que ultrapassam e se perpetuam através dos tempos. 

Jung traz em seus escritos, o indivíduo não apenas com singularidades, mas como ser social, tendo a psique humana uma camada coletiva. Dentro dessa camada coletiva, há diferenciações que correspondem a povos, raças e/ou famílias.  (Jung, OC VII/II).

A escravização e a colonização tentaram desmobilizar e dizimar saberes ancestrais e arquetípicos, separaram famílias, dizimaram povos e reinos. Em terras brasileiras, as resistentes e constantes lutas contra a escravização, a capacidade de discernimento e livre arbítrio na força de Ori, recompuseram o amalgamado tecido da psique, reconstruindo-o e ressignificando as expressões das matrizes afro-indígenas das Umbandas, Candomblés, Juremas, Encantados, Mestres e Mestras; nas mais diversas manifestações populares de religare, reencontro com o sagrado.

Nestas expressões estão o resgate das interrelações de todos os seres: racionais, irracionais, vegetais, minerais e divinizados; todos são participantes, com suas funções, na propagação e manutenção das forças da natureza, o equilíbrio do mundo.

Um resgate de saberes, não por hierarquia de poder, mas com funções hierarquizadas, organizadas e respeitadas. 

Ori Asè: A dimensão arquetípica dos Orixás, é uma das primeiras obras brasileiras num olhar da psicologia analítica que traz à luz tradições mitológicas afro-indígena-brasileiras, através de Umbandas e Candomblés. A partir de revisões e ampliações feitas na obra, mantém a proposta de que Orixás vão além de figuras folclóricas. São expressões de experiências coletivas vivas, relacionadas à natureza com a beleza ritual, a riqueza mítica e o aprofundamento simbólico. Reverenciam o sagrado, ampliam a consciência na individualidade e na relação com as diversidades socioculturais da comunidade. 

Reverencio os autores José Jorge de Morais Zacharias, meu querido e generoso amigo, estudioso da psicologia analítica com um olhar profundo e respeitoso para as mitologias e filosofias afro diaspóricas e dos povos originários e, Felipe Alves e Silva analista, babalorixá e sacerdote da Jurema Sagrada. Dois mestres que nos presenteiam e convidam a caminhar para a desconstrução de preconceitos religiosos, e entrar de maneira consciente e psicopedagógica na mitologia viva que compõe a cultura, as vivências e o imaginário do povo brasileiro.

 

Orí mi o, ṣe rere fún mi! (Meu Ori, me faça coisas boas!)

 

 


Virginia Sant Anna é psicóloga clínica e institucional, especialista em Saúde Mental e Gestão em Saúde Pública , foi gestora de CAPS III UBS e ESF no Município de Santo André – SP. É terapeuta de Sandplay, Analista didata IJUSP/AJB e Egbomi de Oxum Candomblé Queto.