Os Mitos Celtas

Por: Rowena Ferch Aranrot

Os mitos celtas
Os mitos celtas

A Dra. Miranda Jane Aldhouse-Green é arqueóloga e professora emérita na Cardiff University, no País de Gales. Autora de vários livros e artigos acadêmicos, especialista na idade do ferro europeia e na cultura celta.

O termo “celta” foi usado para definir diferentes tribos que falavam línguas aparentadas e não apenas um povo específico geograficamente delimitado, conhecidos atualmente como: irlandeses, galeses, escoceses, córnicos, maneses, bretões e galegos. Sendo esse um conceito de cunho moderno.

Por outro lado, as fontes clássicas citam os celtas e suas lendas antigas contadas através de narrativas míticas por druidas, os guardiões da tradição oral e responsáveis por transmitir e preservar a memória ancestral desses povos.

A abordagem comum sobre os druidas, conforme escritores gregos até Júlio César, na Gália são três classes eruditas: os Bardos (filidh irlandeses);os Vates (videntes); e os Druidas, que ocupavam várias funções político-religiosas.

A Dra. Miranda Green esclarece que a variedade de textos irlandeses vernaculares preservaram muitos elementos da espiritualidade céltica que, combinadas com as evidências arqueológicas, nos dão o direcionamento adequado aos aspectos da história a ser estudada no seu local de origem.

Entretanto, se examinarmos uma lista de divindades gaulesas, poderemos ver que há uma estranha semelhança entre elas e as informações fornecidas pela arqueologia tanto na Gália Romano-Celta como na Grã-Bretanha.

A literatura medieval dos mitos é muito rica em metáforas, transmitem um conhecimento empírico do mundo celta de valores e virtudes, por meio de narrativas mitológicas, inseridas na simbologia de imagens pré-célticas.

Entre as narrativas há os heróis sobrenaturais que travavam batalhas entre deuses e seus animais divinos, atribuindo a eles um aspecto mágico. Bem como os objetos sagrados ou talismãs ornamentados com motivos solares, espirais duplas, triplas e demais variantes. Além de cabeças e caldeirões encantados.

Existem muitos exemplos de cabeças na literatura vernácula. Como Conall Cernach que foi decapitado na guerra empreendida por Medb, rainha de Connacht, descrito no Táin Bó Cúailnge (Ataque às Vacas de Cúailnge).

No mito galês do Mabinogion em Branwen, filha de Lyr, descreve a morte do irmão de Branwen, o herói Bran, “O Corvo Abençoado”. Ele foi ferido em batalha e teve a cabeça cortada. Após a decapitação ordenou que seus homens levassem sua cabeça para uma região do Outro Mundo, até que finalmente tenha sido enterrada no Monte Branco em Londres

Outro ícone muito forte na mitologia céltica é o caldeirão. Na arqueologia temos um antigo artefato de prata, decorado em alto relevo, em estilo celta e trácio encontrado na península dinamarquesa, o Caldeirão de Gundestrup[1].

A iconografia mítica reforça o respeito entre o mundo natural e o sobrenatural, bem como a conscientização da sacralidade do número três. De acordo com as lendas algumas divindades eram tríplices, como as três Mórrígna (singular de Morrigán, deusa dos campos de batalha ). Essa cosmovisão complementa que o animismo evidencia a crença da triplicidade e a existência da vida além-mundo.

Essa referência ao poder sagrado do número três na concepção dos reinos, estabelece uma divisão organizada entre o Caos e o Cosmos, algo imutável e duradouro, impregnado na celticidade antiga e contemporânea dos mitos.

As tradições celtas sobre as fadas se referem às raças divinas irlandesas ou galesas que, às vezes, se pareciam muito com os humanos, tanto em tamanho como em forma, exceto por terem poderes extraordinários e por parecerem eternamente jovens. As Tuatha Dé Danann  na Irlanda e seus correlatos galeses eram vistos como o “Povo Justo”, que podiam morrer como os mortais ou suas vidas durarem centenas e milhares de anos, inclusive aparecendo em muitas outras histórias séculos adiante, comprovando sua existência imortal.

A publicação de Os Mitos Celtas – Um guia para Deuses e lendas antigas contribui imensamente para compreensão das divindades celtas e a religião politeísta no mundo celta, onde a natureza, as águas sagradas e as árvores desempenhavam um papel muito importante nas crenças das tribos célticas.

O registro do paganismo ao cristianismo durante o século VI d.C. foi compilado por monges copistas, baseado na tradição oral de antigos contadores de histórias e se preservou até os dias atuais. A reflexão filosófica e o Bardismo de Iolo Morganwg, que apesar de controverso, resgatou a poesia das tradições galesas. As lendas irlandesas e os mitos arthurianos sobreviveram nas brumas do tempo. A exemplo de Brigit, a Exaltada: “Filha de Dagda, Filho de Dugal o Marrom, Filho de Aodh, Filho de Art, Filho de Conn, Filho de Chiara, Filho de Cairbre, Filho de Cas, Filho de Cormac, Filho de Cartach, Filho de Conn.”

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Rowena Ferch Aranrot é idealizadora do site Templo de Avalon: Caer Siddi, portal dedicado à cultura celta e ao druidismo moderno sob uma ótica reconstrucionista da história. Autodidata em História Antiga, Mitos e Símbolos.

www.templodeavalon.com

[1] O Caldeirão de Gundestrup, datado do século 1 a.C., pertence ao final do período de La Tène. Foi encontrado em 1891 em um pântano na Jutlândia e está alojado no Museu Nacional de Copenhague.