O novo rosto do clero

Um livro que vem do olhar sobre a realidade de hoje

Este livro é o resultado de uma pesquisa de campo, que buscou identificar o perfil dos “padres novos” no Brasil, em relação à sua visão do mundo de hoje, da Igreja e do exercício do próprio ministério. Os dados levantados são oriundos de uma consulta a presbíteros, leigos/as, jovens, seminaristas e religiosas de três Dioceses, em cada uma das cinco regiões do país. A obra apresenta uma análise preliminar dos resultados feita por teólogos-pastoralistas e cientistas sociais de renomadas universidades do país.

Entre outros aspectos, a pesquisa mostra os “padres novos” em meio a práticas pastorais e comportamentos pessoais, por um lado, ligados aos valores da “pós-modernidade” e às novas tecnologias e, por outro, a devocionismos e tradicionalismos nostálgicos de um passado sem retorno. Com isso, se constituem em um sujeito ambíguo, entre o distanciamento da renovação do Vaticano II e da tradição eclesial libertadora e inovações por eles veiculadas a serem levadas em consideração.

A irrupção de um sujeito incômodo

Os “padres novos”, por suas práticas pastorais e comportamentos pessoais, têm promovido na esfera da experiência religiosa, o deslocamento do profético para o terapêutico e do ético para o estético. É um novo sujeito incômodo, pois tem provocado tensões e entraves nos processos pastorais em curso, tanto entre os presbíteros nas Dioceses, como em relação às religiosas e aos leigos e leigas nas Paróquias onde atuam.

Entretanto, o novo perfil de presbíteros na Igreja católica não é um fenômeno a ser desqualificado ou desprezado. Ao contrário, ainda que em muito se vincule a posturas pré-conciliares e da denominada “pós-modernidade liquida”, seu modo de ser e de agir questiona práticas eclesiais correntes, põe em xeque comportamentos costumeiros, desafiando um estudo para além de leituras ligeiras ou pragmáticas do fenômeno.

O conteúdo e a estrutura da obra

A obra está estruturada em três partes, precedidas de dois capítulos com informações sobre o objeto, o teor e as características da pesquisa. No primeiro capítulo, Agenor Brighenti aborda a emergência dos “padres novos” no catolicismo brasileiro, o objeto particular da pesquisa. Trata-se de um sujeito incômodo, no sentido de fazer pensar, provocar instabilidade, levantar questionamentos, exigindo distanciamento analítico, sob pena de desqualificações ligeiras e injustas. No segundo capítulo, Andréa Damacena Martins e Agenor Brighenti explicitam o teor e as características da pesquisa, referenciais importantes a se levar em conta no acesso aos dados levantados e em sua interpretação. Respostas a questões como “o que” se perguntou na busca do perfil dos “padres novos” no catolicismo brasileiro; “a quem” se perguntou para obter os dados almejados; e “como” se perguntou, ou seja, que meios se utilizou para coleta dos dados, etc., precisam ser levadas em conta na abordagem dos resultados.

Após estes dois capítulos introdutórios, segue o relatório dos dados e sua análise preliminar em três partes, segundo os três blocos de perguntas do questionário aplicado na pesquisa de campo. A Parte I trata da – Visão de mundo dos católicos no Brasil e o perfil dos “padres novos” – com um relatório dos dados levantados, seguido da análise preliminar de Brenda Carranza, Andréa Damacena Martins e João Décio Passos, finalizando com algumas considerações gerais feitas por Agenor Brighenti.

A Parte II apresenta os dados sobre – A visão de Igreja dos católicos no Brasil e o perfil dos “padres novos” – iniciando com um relatório dos dados, seguido de uma análise preliminar de Agenor Brighenti, Alzirinha Rocha de Souza e Antônio Manzatto, terminando com algumas considerações gerais de Agenor Brighenti.

Finalmente, a Parte III aborda – “A visão dos católicos no Brasil sobre o ministério presbiteral e o perfil dos ‘padres novos’” – também iniciando com um relatório dos dados relativos a esta parte, seguido de uma análise preliminar por parte de Antônio José de Almeida, Fernando Altemeyer Júnior e Manoel José de Godoy, terminando com algumas considerações finais de João Décio Passos.

Porque e para que conhecer o perfil dos “padres novos”      

Ao buscar caracterizar o perfil dos “padres novos” em relação com a visão de mundo e de Igreja dos católicos no Brasil, o objetivo desta obra é contribuir com os processos pastorais levados a cabo nas Igrejas Locais e com a formação dos futuros presbíteros, segundo as diretrizes da renovação do Concílio Vaticano II e da tradição libertadora da Igreja na América Latina, bem como com os novos desafios oriundos da sociedade atual. Os resultados desta pesquisa podem ser um referencial importante não só para conhecer melhor “os padres novos”, como também para dirimir impasses, gerenciar conflitos e reverter retrocessos nos processos pastorais em curso, no seio das Igrejas Locais, assim como fornecer subsídios para os cristãos que buscam continuar atuando em perspectiva transformadora na sociedade. Por um lado, os “padres novos” trazem novidades a integrar e, por outro, os “padres das décadas de 1970/80” tem uma palavra a dizer depois de décadas de aposta na renovação do Vaticano II, uma herança a preservar, ainda que re-situada no novo contexto em que vivemos.  E no que diz respeito à vida e ao exercício do ministério dos presbíteros, a pesquisa quer contribuir com os processos de formação dos futuros padres, em especial para que possam exercer seu ministério segundo as exigências de nosso tempo.   

No âmbito social, esta obra quer contribuir para a presença e atuação dos cristãos no seio da sociedade atual, em perspectiva profética. A religião pode ser fator de alienação e fuga do mundo, tal como ocorre em muitas de suas expressões, mas pode também ser fator de serviço à sociedade e de transformação social. A emergência de providencialismos, de expressões religiosas ecléticas e difusas ou de fundamentalismos e tradicionalismos, precisam ser estudados e, com isso, fornecer elementos de análise que permitam discernir entre o que é novidade e avanço a acolher e potenciar e o que é fuga dos novos desafios e refúgio em velhas respostas a perguntas que ninguém mais as faz.


– Agenor Brighenti

Sobre o autor:

Terminada a graduação em Teologia, em 1980, Agenor Brighenti especializou-se em pastoral social e
planejamento pastoral no Instituto Teológico-Pastoral para a América Latina do CELAM, em Medellín. Em 1981 foi ordenado presbítero na Diocese de Tubarão/SC, onde foi coordenador diocesano de pastoral até 1987. Entre 1988- 1993 cursou o mestrado e doutorado em Teologia na Universidade Católica de Lovaina/Bélgica, laureado com uma tese sobre “as raízes da epistemologia e do método da teologia da libertação”. De 1994 a 1996 foi diretor-acadêmico do Instituto Teológico-Pastoral do CELAM, em Bogotá. Entre 1997 e 2008 foi professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, em Florianópolis, e presidente do Instituto Nacional de Pastoral (INP) da CNBB. Desde 2009 é professor pesquisador no Programa de Teologia da PUC de Curitiba, onde foi também coordenador. Foi perito do CELAM na Conferência de Santo Domingo (1992), da CNBB em Aparecida (2007) e do Sínodo para a Amazônia em Roma (2019). É membro da Equipe de Reflexão Teológico-Pastoral do CELAM e do Grupo de Teologia latino-ibero-americana, com sede em Boston. Autor de duas dezenas de livros e de duas centenas de artigos veiculados em revistas nacionais e internacionais.