Novas investigações da história de Israel e Judá - Literatura, arqueologia e religião
Por: Prof. José Ademar Kaefer
Neste livro reúno boa parte das pesquisas inovadoras mais recentes do campo bíblico, Antigo ou Primeiro Testamento, que aconteceram em nosso país. São doutores e doutoras, dentre os e as quais se encontram ganhadores e ganhadoras do prêmio CAPES de tese, que disponibilizam aqui suas investigações.
O expressivo avanço da pesquisa bíblica se deu particularmente no campo da exegese, onde aconteceu uma reaproximação com a arqueologia, com maior atenção à iconografia, à epigrafia e com a inclusão de novas ciências no estudo da história dos povos da Bíblia. Isso exigiu uma reavaliação da longa história do chamado povo de Israel, que também passou por uma redefinição de suas identidades. Elencamos aqui muito brevemente alguns avanços mais relevantes das pesquisas, os quais foram objeto de estudo dos autores e autoras do presente livro.
A nova visão da passagem da Era do Bronze para a Era do Ferro no Levante. Para isso contribuiu, essencialmente, um novo enfoque às descobertas arqueológicas, como as cartas de Tell el-Amarna, que foram reavaliadas, e os tabletes cuneiformes de Ugarit (Rash Shamra). Além disso, foram extremamente relevantes os avanços na forma de fazer arqueologia, como no caso do Tel Meguido, que resultou no estabelecimento de uma nova cronologia para as origens da história de Israel, denominada de “baixa cronologia”. Ou, então, da análise em laboratório do pólen recolhido no fundo do mar morto e do plâncton do mar mediterrâneo, que resultou na conclusão de que a decadência do fim da Era do Bronze e início do Ferro foi causada por uma prolongada estiagem em todo Levante. Tudo isso, por sua vez, mudou a compreensão do surgimento do Israel primitivo, o qual não se deu fora, mas dentro de Canaã. Ou seja, que na realidade, Israel é fruto da cultura canaanita.
Outro avanço foi ampliação do entorno cultural. Ou seja, a inclusão da história dos povos vizinhos quando se trata de estudar a formação do povo de Israel e de Judá. Em última análise, nenhum povo se forma sozinho. É o caso, por exemplo, dos povos da Transjordânia, Amon, Moab e Edom, cuja história e cultura se identificam muito com a de Israel e de Judá. Seu surgimento adentra a Era do Bronze. Sua formação enquanto reino, contudo, é bem mais tardia, não antes do século IX AEC. Neste sentido, o desenvolvimento de Amon, Moab e Edom, enquanto reinos, é bastante similar ao de Judá.
Sobre Israel Norte, começamos a ter informações mais seguras a partir do seu estabelecimento como reino. Isso aconteceu entre os anos 885-840, com a dinastia omrida: Omri, Acab, Ocozias e Jorão. Aliás, o reconhecimento pela arqueologia do poderio da dinastia omrida na região do Levante, principalmente com o rei Acab, foi uma das grandes mudanças na compreensão da história de Israel. O reconhecimento do poderio de Israel Norte desconstruiu a teoria da Monarquia Unida, sob a batuta de Judá nos reinados de Davi e Salomão. Aquilo que se atribuía a Judá, como o caso dos famosos portões de seis câmaras de Gezer, Hazor e Meguido, é de fato obra de Acab, rei de Israel. Se não houve Monarquia Unida, também não houve divisão dos dois reinos, como se presumia (cf. Rs 12s.).
Depois da dinastia omrida, Israel Norte entra num forte declínio, dado ao fato do crescimento de Aram-Damasco, com o rei Hazael. A retomada do desenvolvimento de Israel Norte só acontece novamente com Jeroboão II. Este rei estendeu seu domínio para o norte, até Dã, para o sul, até o porto de Ácaba e, especialmente, sobre os reinos do leste, Amon, Moab e Edom. É o período de maior expansão israelita. É também durante o reinado de Jeroboão II que se dá o início da escrita dos textos bíblicos.
Depois de Jeroboão II, Israel Norte volta a entrar em declínio até a invasão assíria e a conquista de Samaria em 722/721. Foi o fim de Israel Norte? Para esta resposta é preciso ler o neste livro o cap. IV, de Cecília Toseli. Com o declínio de Israel Norte, Judá se torna independe e começa a fazer seu próprio caminho e sonhar com voos mais altos. Inicia-se, então, uma nova era na história de Judá, que será abordada, com grande destreza, no capítulo V, pela pesquisa de Sue’Hellen Monteiro de Matos; de Omar João da Silva, no capítulo VI, e de Rogério Lima de Moura, no capítulo VII.
Prof. José Ademar Kaefer é religioso, SVD; mestre em Ciências da Religião pela Umesp; doutor em Sagradas Escrituras pela Westfälischen Wilhelms-Universität Münster, Alemanha, com estágio pós-doutoral pelo Departamento de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv, Israel; foi professor por treze anos do PPG-Umesp; ganhador de quatro Prêmios Capes Tese (orientador); coordenador do grupo de pesquisa “Arqueologia do Antigo Oriente Próximo”; editor da Revista Ribla; autor de vários livros e artigos. Atualmente é professor do PPGT-PUCPR.
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