A pele do vento - Compreender e experienciar o autismo

Por: Sílvia Ester Orrú 

 

Ao longo de 25 anos produzi literatura acadêmica na área da educação inclusiva e direitos humanos e fui muito feliz nesta jornada. Contudo, em razão da insalubridade das relações acadêmicas, a indiferença e a falta de acolhimento às minhas demandas de saúde, a ausência de diálogo, o endurecimento dos “colegas” quanto a decisões que impactavam diretamente em meu bem-estar físico e mental como mulher na condição do Autismo, foram me adoecendo e, sem nenhum sentimento de pertencimento institucional, fui me entristecendo profundamente nos últimos anos. A aspereza e as ciladas da adultez estavam me engolindo a vida em sua preciosidade. 

Neste processo triste e duro de adoecimento e sofrimento psíquico, as crises por sobrecarga emocional e sensorial, em um ciclo de complexo contorno, tornaram-se cada vez mais frequentes. Eu não cabia mais em mim. Perdi cabalmente o desejo de escrever. A escrita me faltava e eu sentia a falta dela. Tudo estava cinza, sem gosto, sem graça, sem lógica e gélido.

Em uma sessão de análise, minha psicanalista, cuidando da minha dor pela ruína do meu desejo de escrever, sugeriu-me com um olhar e sorriso afável: “- Escreva para você!”.

A princípio, pensei ser impossível! Minha escrita estava forjada na literatura acadêmica. Como eu me des-faria dos ritos e dos vícios cientificistas? De outra parte, eu não achava nada fácil digerir meu mar de tristezas durante as sessões de análise, quanto mais dizer sobre ele em palavras escritas, estas que me eram linhas de fuga ao pensar e falar apenas sobre e para os outros durante quase três décadas. 

Devagarinho, fui me abrindo à esta nova possibilidade de me encontrar com a minha escrita, literalmente, com a Minha Escrita: de mim para mim, comigo mesma, e de mim para o mundo e com o universo.  Já não era mais sobre o outro, sobre o mundo e para os outros. Era sobre mim e, especialmente para mim mesma.

A escrita poética me abraçou como uma escrita terapêutica, um autocuidado para aliviar o impacto das sobrecargas sensoriais e emocionais que me fatigavam, bem como para enfrentar as sequelas dos des-encantos e frustrações que estavam coladas no meu coração. Esta escrita também me possibilitou uma melhor compreensão sobre os meus processos de entristecimento e os recursos e caminhos para lidar com as minhas angústias e desassossegos. 

Temas centrais abordados na literatura científica sobre o Autismo, como a empatia e os sentimentos profundos; o mascaramento do Autismo e a camuflagem social; a sensibilidade emocional e sensorial; o hiperfoco como potência; a memória, a alexitimia e a presença da literalidade; crises por sobrecargas e seu impacto na saúde mental, dentre outros assuntos pertinentes, são trazidos para o leitor de forma explicativa e com linguagem clara e objetiva.

À sequência de cada tema discutido, revelo meu próprio experienciar o Autismo com poesias nascidas em minha travessia pessoal e que pulsam meus versos e (re)versos tocados pela Pele do Vento, às vezes tão suave e (re)confortante, outras vezes, tão avassaladoramente violenta, todavia, sempre intensa e em movimento.

Em A Pele do Vento: compreender e experienciar o Autismo, traduzo com propriedade acadêmica e delicadeza poética, conceitos científicos pertinentes ao Autismo em vivências e sentimentos expressados em poesias. É um convite afetivo para a leitura de todas as pessoas que desejam desenvolver e fortalecer sua escuta sensível no combate a todas as formas de violência, preconceito e discriminação às pessoas nas singularidades do Autismo.

 

Tudo é incerto e tem seu fim,

menos a Morte de tudo.

Se puder,

Não semeie tristezas no coração alheio.

Você vai morrer!

Plante uma flor,

uma árvore,

MELHOR, um sorriso.

Isso também é sobre Inclusão.

 

Há Braços! ♀️🧩🌻

 

 


Sílvia Ester Orrú, mulher na condição singular do Autismo. Doutora em Educação com estudos de Pós-doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Docente e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB). Autora de livros, capítulos e artigos em periódicos nacionais e internacionais. Pratica atividades físicas junto à natureza e ao voo livre de parapente como caminhos para o autocuidado com a saúde física e mental. Acredita que o mundo pode ser bem melhor se houver acolhimento e respeito às Diferenças.