IA: Grande substituição ou complementaridade?

Por: Luc Ferry

 

INTRODUÇÃO 

AS SETE QUESTÕES ABORDADAS NESTE LIVRO

 

Quando, em 1977, um software de inteligência artifi­cial integrado ao computador Deep Blue venceu o cam­peão mundial de xadrez, Garry Kasparov, o mundo todo compreendeu que algo excepcional acabara de acontecer. Que uma máquina “sem alma”, desprovida de consciência e de qualquer sentimento, pudesse ser muito mais eficien­te do que o humano mais eficaz do mundo num jogo de pura inteligência parecia até então inimaginável, beiran­do a ficção científica, e não a ciência. Ora, o fato é que, desde essa data, a IA não parou de progredir a ponto de, salvo engano de minha parte, ninguém, inclusive entre os melhores especialistas do mundo, ter previsto há pelo menos dez anos os desempenhos de que hoje são capazes os LLM (large language models), as IAs generativas de tex­tos, de imagens e, agora, de vídeos.

Quando apresento numa conferência algumas das capacidades desses LLM, a destreza com a qual respon­dem em todas as línguas às nossas questões, sempre me perguntam como é possível que máquinas criadas por humanos possam ser infinitamente superiores a eles nos jogos de pura inteligência como o jogo de xadrez ou o Go, nas provas de diagnóstico médico, nos testes de quo­ciente intelectual, nas redações de textos, na elaboração de imagens e vídeos de todos os tipos, e até na produção de obras de arte ou de romances que, fabricados pelas IA, já ganham prêmios prestigiosos. A maioria dos pesqui­sadores desse setor que encontrei está convencida de que na próxima década conseguirá fabricar uma “AGI”, uma inteligência artificial geral ou “superIA” que acabará nos suplantando em todas as áreas. Alguns evocam então, ora assustados, ora céticos, o conhecido Mito de Frankens­tein, em que a criatura escapa a seu criador e ameaça de­vastar o mundo… O fato é que não se trata de ficção cien­tífica, mas sim de uma revolução que vai abalar o futuro de nossas crianças como nenhuma outra antes.

Nessas condições, sete questões cruciais surgem para o futuro de nossa espécie humana num mundo onde a IA será em breve onipresente – e são elas o objeto deste livro, são elas que estruturam sua organização e seus capítulos. Como meu leitor verá a seguir, não se trata de dar lições de moral, tampouco respostas dogmáticas e definitivas a essas importantes questões que todos os especialistas em IA se colocam hoje; questões, aliás, que deveriam ser a principal preocupação dos nossos políticos acaso sua cultura científica não fosse, com raras exceções, tão rudi­mentar. Para mim, trata-se muito mais de expor, sempre de forma tão objetiva e clara quanto possível, os dados de cada uma dessas questões fundamentais, de indicar os argumentos de uns e de outros, argumentos muitas vezes contraditórios, por vezes polêmicos, antes de eventual­mente propor humildemente meu ponto de vista – hu­mildemente porque a revolução da IA é tão repentina, tão rápida, para não dizer tão brutal, que nenhum observa­dor, por mais informado que seja, está de todo convicto de ter respostas absolutamente definitivas.

Trabalho nesse assunto há mais de dez anos, apaixo­nado por ciência (ensinei sobre o tema “biologia e filoso­fia” na Faculdade de Ciência de Paris…), fiz tudo ao meu alcance nesses últimos anos para ter uma informação correta. Tive a sorte de encontrar e de consultar alguns dos melhores especialistas no mundo e participo de gru­pos de pesquisadores com os quais posso conversar de forma sempre mais precisa e mais profunda, e por isso eu os agradeço calorosamente. Mas o fato é que certos as­suntos vão além da ciência propriamente dita, eles dizem respeito à ética, à política e, claro, à filosofia. São os resul­tados dessas cogitações que apresento aqui a meu leitor, pois é um tema que, como ex-ministro da educação, estou convencido de que é simplesmente o mais crucial para o futuro de nossas crianças.

Desempenhos que ninguém havia previsto: Qual a explicação?

O mais estranho nesse caso, retorno ao assunto, é que ninguém, nem mesmo um pesquisador tão eminen­te quanto Yann LeCun, com o qual tive o prazer de con­versar durante um almoço amigável, tampouco os enge­nheiros do Google que, no entanto, haviam inventado o Transformer, dispositivo genial que permitiria engendrar essas IAs generativas (LLM ou SLM)1, havia previsto cinco anos atrás seu aparecimento. Os desempenhos espetacu­lares dos geradores de vídeos como o Sora ou o Vidu; al­guns LLM como o Gemini (o futuro motor de busca Bard desenvolvido pelo Google); o Llama 3, pela Meta; o Grok, de Elon Musk; o Claude 3, da Anthropic; ou o GPT-42, da OpenAI, sem mencionar as IAs generativas de imagens, como o Dall-E, o Midjourney ou o Stable Diffusion (cito as mais conhecidas, mas claro que há outras…3), pouco tempo atrás revolucionaram literalmente o campo das IAs. Baseadas em redes de neurônios artificiais e treinadas a partir de quantidades astronômicas de dados textuais ou visuais que elas literalmente “pilharam” (livros, jornais, fotos, imagens, gráficos, obras de arte, podcasts, filmes, programas de rádio, de televisão etc.), elas não apenas compreendem melhor do que a maioria dos humanos os documentos que lhes são submetidos, inclusive quando se trata de artigos científicos difíceis, de textos literários sofisticados ou mesmo de desenhos humorísticos, como se mostram capazes de responder em alguns segundos, aqui também de modo muitas vezes bem superior à maioria dos humanos, a todas as questões que lhes colo­cam – se essas questões não chocarem os códigos éticos com os quais seus programas estão “alinhados”4.

Falemos sem rodeios: esses desempenhos feitos por máquinas que não são, no entanto, dotadas, desculpe-me por insistir nesse ponto que é justamente o mais fasci­nante, nem de consciência, nem de emoções5, deixam de boca aberta qualquer um que se disponha a examiná-las seriamente, em vez de desenvolver uma obsessão, só para obter uma falsa tranquilidade, pelos erros e as “alucina­ções6” que elas ainda cometem, mas que são cada vez mais raras7 e que, aliás, devem-se essencialmente aos er­ros e aos vieses dos humanos que as programaram. Tam­bém não devemos nos esquecer de que essas IAs ainda não passam de bebês, criancinhas de apenas dois ou três anos, e que tudo leva a pensar que elas vão continuar a pro­gredir de maneira exponencial nos próximos anos. Sendo assim, o que então aconteceu para que ninguém, ou quase ninguém, tenha visto a chegada desse tsunami e quais são os dados científicos novos sobre o que o provocou? Esse será o objeto do primeiro capítulo.

A IA é capaz de ser criativa tanto na medicina quanto nas artes, nas ciências e nas letras?

Caminhamos realmente, como afirmam certos es­pecialistas apoiados em fatos e em argumentos sólidos, na direção de novas formas de arte sem artistas, e até na direção de uma medicina sem médicos e de livros sem “autores”? Por mais estranha, para não dizer absurda, que a questão possa parecer a priori, a criatividade da IA nas áreas que até agora eram reservadas unicamente aos seres humanos parece bem real. Também aqui, como era de se esperar, a questão suscita debates, e até polêmicas. Ainda assim, como veremos no capítulo 2, certas obras de arte produzidas pelas IAs generativas, e até certos romances, obtiveram prêmios prestigiosos para o enorme desapon­tamento dos concorrentes humanos que, por vezes, recor­reram aos tribunais. Em medicina, alguns professores de oncologia, de dermatologia ou de cardiologia, e até mes­mo de cirurgia, sem mencionar radiologistas, anunciam, muitas vezes com pesar no coração, o fim próximo de uma grande parte de sua profissão, senão de sua totalida­de. Também nessa questão retornaremos detalhadamente e em profundidade, a fim de mensurar a pertinência (ou a inanidade) dos argumentos apresentados. 

Rumo ao fim do trabalho assalariado?

Os progressos das IAs generativas colocaram em no­vos termos a conhecida questão do “fim do trabalho”, uma questão que para dizer a verdade se divide em duas subquestões. Primeiramente, há o que chamávamos na tradição filosófica de “questão de fato”: é possível, ou mes­mo provável, que o impacto da IA nas empresas provoque um desemprego em massa ou quem sabe se trate apenas de uma fantasia destinada a causar medo, e até mesmo fazer publicidade dos donos das empresas do Vale do Si­lício que querem espalhar a ideia de que os desempenhos de seus brinquedinhos são tão extraordinários, tão fora do comum, que em breve eles serão os novos senhores do mundo? Mas em seguida há a “questão de direito”: admi­tindo-se que a hipótese do fim do trabalho seja séria, que logo vejamos aparecer, como afirmam tanto Elon Musk quanto Sam Altman, empresas sem nenhum assalariado humano, esse fim do trabalho seria uma boa ou má no­tícia, o esboço de um paraíso ou de um inferno na terra?

Quanto à questão de fato que todos já se colocam no mundo da IA e que servirá de primeiro fio condutor do capítulo 3, trata-se então de saber se os progressos ver­tiginosos dos LLM podem, sim ou não, engendrar num prazo mais ou menos longo uma forma nova de “grande substituição”, não a dos ocidentais por “hordas selvagens” de que falam as extremas direitas nacionalistas e sobera­nistas, e sim a de quase todos os humanos por máquinas. A hipótese, que outrora pertencia à literatura de ficção científica, tornou-se simplesmente possível, se não pro­vável, uma vez que certos estudos aos quais voltaremos neste capítulo já previam que centenas de milhões de em­pregos serão em breve substituídos pelas IAs, e isso tanto mais porque subestimamos os progressos da robótica in­teligente. De fato, quando a IA generativa fez sua apari­ção, muitos pensaram que seu impacto sobre o mundo do trabalho estaria reservado aos colarinhos-brancos. En­quanto nas antigas revoluções a automatização destruía empregos manuais e repetitivos, agora quem estaria na mira são os que têm diploma de curso superior. Claro, essa argumentação não é falsa e já está na hora de repen­sar a orientação de nossas crianças para profissões que resistirão melhor à onda gigantesca, isto é, aquelas que associam a cabeça, o coração e as mãos. É evidente, ci­tando apenas um exemplo simbólico, que em medicina o radiologista desaparecerá antes do clínico-geral e o clínico-geral antes da enfermeira.

É notório que esse assunto também provoca debates, é objeto de controvérsias, e até mesmo de polêmicas de uma rara vivacidade. Inúmeros pesquisadores em IA ou em economia, e não dos menos importantes – Yann LeCun, Thomas Wolf, Philippe Aghion ou ainda Gilles Babinet, entre tantos outros –, estimam que a tese segundo a qual a IA vai engendrar ganhos de produtividade tão grandes que destruirá milhões de empregos, e até centenas de mi­lhões, é falsa, para não dizer grotesca. Claro que precisa­mos ouvi-los, levar a sério seus argumentos e eles serão expostos no capítulo 3. Ainda assim há outros (como eu) que pensam que tudo é uma questão de escala de tempo e que esse otimismo do “não fim do trabalho”, por mais simpático que seja, engana-se de revolução industrial, de modelo econômico e de época. Em vez de querer me tran­quilizar e tranquilizar os outros a todo custo, estou con­vencido de que teremos de nos indagar quanto ao mun­do vindouro, não daqui a dois ou três anos, mas daqui a vinte ou trinta anos, um mundo no qual não há certeza de que uma grande parte do trabalho assalariado como o conhecemos continuará a existir. O que nossas crianças se tornarão então? Questão vertiginosa que há muito o Mi­nistério da Educação Nacional e o Ministério da Cultura deveriam ter abordado, se ambos não estivessem cegos às revoluções científicas… Como os argumentos da tese (o fim do trabalho não ocorrerá) e da antítese (caminhamos para uma nova forma de grande substituição) pretendem ser – e são muitas vezes – racionais, é por sua exposição a mais objetiva possível que começarei o capítulo 3.

Acelerar para “progredir” ou desacelerar para regular? O debate decel versus e/acc

A quarta questão sai claramente do campo da ciência para nos conduzir ao da ética, da política e da filosofia: é com certeza a da regulação da IA e o mais urgente, para mim, e o digo logo de cara, envolve a regulação das deep­fakes e mais ainda o uso dos “avatares”, esses gêmeos digi­tais que podem tomar o lugar de qualquer um de maneira praticamente indetectável numa videoconferência. Você acha, por exemplo, que está conversando com um de seus colegas no Skype, no Zoom ou no Google Meet, mas a verdade é que nada mais pode lhe provar com certeza ab­soluta que é realmente ele, que você não está falando na realidade com um gêmeo digital. Tenho um amigo que fabricou um de si mesmo muito recentemente, seus filhos conversaram com “ele” durante uns bons vinte minutos, acreditando que falavam com o pai quando não passava de um sósia digital! Essas invenções são cada vez mais usadas nas empresas, e até mesmo nas mídias audiovi­suais, mas é bastante evidente que elas podem também ser usadas para fins malévolos e extraordinariamente pe­rigosos. Com as deepfakes, é possível destroçar a vida de uma pessoa, assediar um aluno ou uma aluna, arruinar a reputação de uma família ou de uma empresa, e fico consternado em ver até que ponto a ignorância de nos­sos políticos nesse assunto é assombrosa e isso tanto mais porque muitas outras questões éticas ligadas à IA correm o risco de abalar o mundo na próxima década – a da ma­nipulação de eleições, da pirataria dos dados, dos cibera­taques, das câmeras de vigilância, e, talvez a pior de todas, a das capacidades futuras dos assistentes virtuais pessoais para fabricar vírus mortais, bombas artesanais disponí­veis gratuitamente graças ao open source [código aberto] para todos os terroristas amadores…

Razão do debate que hoje agita o mundo da IA: é pre­ciso fazer uma pausa para ter tempo de regular ou, ao con­trário, acelerar para impulsionar os progressos da IA que, especialmente na área da saúde e da luta contra o câncer, já salvam vidas? De todos os debates sobre a IA, esse já é o mais acalorado, para não dizer o mais violento. De acordo com alguns, é o único que vale, pois simplesmente colo­ca em jogo o futuro da humanidade. Ele toma, como de costume em assuntos que despertam paixões, a forma de uma antinomia, de uma oposição radical e irredutível en­tre uma tese e uma antítese. De um lado, os partidários de uma moratória defendem uma pausa de vários meses que daria aos decisores – chefes de empresas, juristas, “eticis­tas” ou políticos – o tempo para refletir quanto aos vários riscos que a IA traz para a humanidade, o que lhes per­mitiria implementar barreiras, regulações e leis que fixem proibições. Eles são, portanto, favoráveis a uma “desace­leração”, pois são chamados em inglês de decels, os “de­saceleradores”. Do outro lado, como era de se esperar, os “tecnófilos”, aqueles que são chamados de “e/acc” (para “e/aceleracionistas”), acusam os decels de serem a rigor cri­minosos contra o progresso e defendem, ao contrário, que se acelere o movimento em processo. Aqui, vou expor em detalhes os argumentos tanto de uns quanto dos outros antes de propor as minhas próprias reflexões.

Rumo às máquinas dotadas de consciência e de emoção

Ciência e filosofia são aqui inseparáveis. Muitos pes­quisadores em IA confundem o que em inglês é chamado de AGI (inteligência artificial generalista) e a IA forte, ou seja, uma máquina que seria realmente dotada de cons­ciência e de emoções como os humanos. Para mim isso é um grave erro. Agora é mais do que provável que na próxima década tenhamos IAs generalistas superiores a nós em praticamente todas as áreas da inteligência. Mas ainda assim serão IAs fracas, isto é, máquinas desprovi­das de consciência e de emoções e, conforme já sugeri, é justamente isso que é surpreendente, ou seja, o fato de que as máquinas sem consciência dão todas as aparên­cias da inteligência humana mais viva, e até mesmo das emoções humanas mais sofisticadas. Em contrapartida, uma IA forte seria uma máquina realmente provida de consciência e de emoções. Seria o caso, portanto, de uma pós-humanidade potencialmente imortal. É uma possi­bilidade real ou uma utopia de ficção científica? Entre os pesquisadores em IA com quem tive a oportunidade de conversar, 90% estão convencidos – em geral porque são materialistas e, por essa razão, pensam que nós também não passamos de máquinas – de que chegaremos lá, de que uma IA forte logo surgirá, de que é apenas uma ques­tão de décadas no máximo. Quais são seus argumentos e quais são aqueles, inclusive eu, que não acreditam nis­so? E, mais uma vez, observaremos que o debate toma a forma de uma antinomia que opõe uma tese (a IA forte se tornará realidade) a uma antítese (uma máquina não poderá jamais ser consciente e dotada de emoções).

Para mim, essa questão é a mais importante de todas quando se trata do futuro da IA e de seu impacto em rela­ção à humanidade, pois, se conseguíssemos construir uma IA forte, teríamos então criado, e nesse sentido a figura de Frankenstein se tornaria mais do que um mito, uma nova espécie de seres que seriam não apenas superiores a nós sob todos os aspectos, mas que, não sendo ou não neces­sariamente encarnados num corpo biológico mortal, se­riam potencialmente imortais. Não acredite que aqui des­lizamos para um péssimo roteiro exclusivo da literatura de ficção científica: continuo a insistir, os cientistas mais sérios, bem como os donos dos oligopólios californianos que trabalham dia e noite nesse assunto, estão em grande parte convencidos de que a hipótese da criação de uma pós-humanidade imortal não pertence mais ao campo da mitologia ou da religião; e sim ao da ciência.

Para deixar mais claras as coisas sobre esse assunto, proponho começar fazendo uma cuidadosa distinção entre três tipos de IA, indo da mais fraca (uma IA não consciente e, por consequência, não humana), até a mais forte (aquela dotada de consciência, de sentimentos e de interesses próprios), passando pela AGI ou ASI, uma IA generalista ou “superIA” que seria “apenas” mais inteli­gente do que nós em todos as áreas, mas sem ser, no en­tanto, dotada de consciência de si, tampouco de emoções. Em seguida, poderemos compreender e mensurar o al­cance dos argumentos dos partidários da IA forte, bem como aqueles partidários da antítese que estão convenci­dos, como no meu caso, de que a tese se apoia em ilusões propriamente metafisicas de um materialismo dogmático cuja crítica filosófica há muito tempo demonstrou que ele era, sob uma enganadora aparência de profundidade “ge­nealógica”, na verdade de uma grande ingenuidade.

A IA vai realmente nos tornar imortais?

Por mais estranho que possa parecer a priori a qual­quer pessoa de bom senso, não é, portanto, apenas para dominar o mundo que os grandes donos dos oligopólios californianos da IA propõem acelerar os progressos, e sim para resolver o problema que persegue a humanidade des­de a aurora dos tempos e que alimenta todas as religiões: alcançar a imortalidade. Eles estão, de fato, convencidos de que o projeto transumanista de lutar “apenas” contra a ve­lhice e de aumentar “apenas” a longevidade em boa saúde é ao mesmo tempo demasiado lento e demasiado tímido. É preciso ir mais rápido e mais longe, limitar-se à luta contra a velhice e ao aumento da longevidade é inútil, insuficien­te, é rumo à imortalidade que é preciso ir, o que os con­duz, conforme veremos no capítulo 6, a revisitar a obra de Teilhard de Chardin (que deve estar se revirando no cai­xão), retomando sua estranha noção de “noosfera”, uma es­fera da inteligência artificial na qual poderíamos, segundo eles, nos tornar imortais se, todavia, aceitarmos nos livrar de nosso corpo mortal para nele fazer o download de nossa memória, de nossa inteligência e de nossa personalidade.

O projeto já conhecera uma notoriedade no final dos anos 1990 como uma subcorrente do transumanismo, sob o nome de “extropianismo”. Gostaria de mostrar no capí­tulo 6: (1) como os e/acc pretendem prolongar o projeto extropiano graças aos avanços atuais da IA que eram des­conhecidos, e até mesmo inimagináveis ainda nos anos 1990, tentando dar credibilidade à ideia de que podemos nos tornar imortais na noosfera – ideia que pode pare­cer delirante, mas à qual certo número de atores entre os mais eminentes e os mais influentes da revolução da IA crê fortemente, o que por si só justifica nosso interesse, quanto mais não seja por causa da potência das empre­sas que eles dirigem; (2) gostaria, em seguida, de indicar como e por que esse projeto parece-me tão pouco crível quanto pouco sedutor; e, por fim, (3) em que sentido ele marca uma ruptura radical com a doutrina da salvação cristã e um retorno a certa forma de espinosismo. São, de alguma forma, três faces da teologia da salvação que se enfrentam aqui: a eternidade na noosfera da IA se opon­do radicalmente à doutrina cristã do “corpo glorioso” (da imortalidade pessoal, corpo e alma), adaptando aos novos tempos (o da IA) uma das mensagens mais pro­fundas do espinosismo segundo a qual nós “sentimos e experimentamos que somos eternos” (Ética V, proposi­ção 23, escólio), desde que, após nossa morte, enfim livre de nosso corpo mortal, nossa essência reencontrará seu lugar no entendimento divino, um lugar cuja existência pode, às vezes, levar-nos a esquecer, mas que certamente nós jamais perdemos no nível de nossa essência. E para os e/acc, a noosfera da IA poderia bem ser um equivalen­te moderno do entendimento divino, conforme definido por Espinosa. Como veremos, o debate científico toma, mais uma vez, um aspecto eminentemente filosófico. 

Conclusão: Correr para as montanhas? O grande medo dos intelectuais. Separar o joio do trigo

Por mais que se sublinhe que a IA poderá, em breve, substituir as tarefas enfadonhas, repetitivas, pouco grati­ficantes e, muitas vezes, mal remuneradas; que se afirme que ela permitirá progressos magníficos na área da saúde, em particular na luta contra o câncer, mas também na proteção do meio ambiente ou na agricultura, a fim de alimentar todo o planeta por séculos e séculos; por mais que se lembre o quanto os LLM poderiam ser um fator de difusão dos conhecimentos, de ajuda na criação artística, literária e científica; que se explique por que a IA pode­ria, no mundo empresarial, engendrar ganhos de pro­dutividade e de crescimento; é, de longe, o pessimismo que triunfa sobre o otimismo, muito particularmente na França. E, como era de se esperar, é sobretudo no mundo intelectual que a hostilidade ao capitalismo é mais viva, uma vez que o universo intelectual é atravessado há dé­cadas pelo sentimento de que a decadência é inevitável, de que o mundo moderno é o do horror econômico, uma convicção ligada a uma hostilidade de princípio a esse li­beralismo, cuja inovação tecnocientífica e a mercantiliza­ção do mundo seriam as únicas finalidades. Detentores autoproclamados do monopólio do espírito crítico, qual­quer mera novidade oferece aos intelectuais dotados de uma sensibilidade de esquerda um maravilhoso motivo de deploração. Basta ser um tantinho otimista e já lhe co­locam a etiqueta pouco invejável do imbecil feliz.

Nos anos 1970, os intelectuais de esquerda, necessa­riamente de esquerda, já se apoiavam no pessimismo para se fazerem ouvir. Depois do fracasso de um comunismo que já tivera seus belos dias, mas que não era manifesta­mente mais defensável em razão das catástrofes humanas que ele havia engendrado; os teóricos do decrescimento, desesperados por verem as diferentes facetas da ideia re­volucionária colapsar, escolheram de forma resoluta se apoiar nos medos para justificar sua “desconstrução” das democracias liberais8: da poluição dos mares ao aqueci­mento global, passando pelo buraco da camada de ozô­nio, tudo servia para espalhar a nova face da crítica ao ca­pitalismo. Não me entendam mal: esses problemas eram reais, e ainda os são mais do que nunca, mas o decres­cimento, muito felizmente, nunca foi a solução. Muitas vezes, o mundo intelectual ainda hesita entre a negação (“a IA nunca passará em um concurso para professor de filosofia”; ao passo que, na realidade, como mostrarei, se desejassem, a IA passaria sem a menor dificuldade, e sem ser minimamente “filósofa”) e a progressofobia (“É pre­ciso deter a corrida louca de um progresso ilusório e que ameaça destruir a humanidade”).

Para ir mais longe, eu proponho superar o medo. Para tanto, são necessárias duas condições que me parecem mais cruciais do que nunca: primeiro, é preciso enfim compreender com quem e com o que estamos lidando nessa revolução da IA; procurar perceber em profun­didade, sem se deter em posturas intelectuais otimistas ou pessimistas sempre simplistas e demasiado fáceis, os debates apaixonantes e apaixonados que animam hoje o mundo dos pesquisadores. Conforme já foi dito, este é o objeto deste livro. E não é só. É preciso também começar, desde agora, a imaginar um futuro possível, um futuro dentro do qual uma complementaridade entre a IA e o humano poderia encontrar uma forma de harmonia – o que supõe, aliás, que a política, que hoje não passa de ges­tão lenta e tímida, reate enfim com um grande projeto, com uma visão de mundo que não se contente mais com repetir o nacionalismo e a ideia revolucionária que do­minavam a direita e a esquerda até os anos 1980 antes de colapsar para dar lugar à era do vazio. Não é mais possível parar no tempo, sobretudo, quando uma revolução tão brutal e perturbadora quanto a da IA se apressa a mudar o mundo como jamais. Por não reatar com um grande projeto portador de sentido, está claro que nossa velha Europa em breve não será mais do que uma colônia dos Estados Unidos e da China.


Luc Ferry, nascido em Paris, em 1951, é um dos filósofos franceses mais lidos da atualidade, reconhecido por obras que trouxeram a filosofia de volta ao cotidiano. É doutor em Ciência Política pela Universidade de Reims, onde atuou como professor. Um dos principais de¬fensores do humanismo secular – visão de mundo que se contrapõe à religião –, por conta de seu compromisso com o uso da razão crítica, em vez da fé, na busca de respostas para as mais importantes questões humanas.

 

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1.Small language models ou “mini-IA”, ou seja, IAs generativas especializadas numa área específica, portanto, ao mesmo tempo mais eficazes e menos caras.

2. Lembremos o que significam as letras que formam o nome ChatGPT: ge­nerative pre-trained transformer.

3. Na França, o Mistral AI ou o Argil.ai, já com uma grande qualidade…

4. Por exemplo, o GPT-4 recusa-se a responder a perguntas que ele considera “perniciosas” ou “imorais”. Quanto ao Dall-E, ele recusa-se a criar imagens de pessoas reais a fim de evitar a fabricação de “deepfakes”. O Gemini, num gênero cômico, de tanto procurar pelo em ovo em sua luta contra os este­reótipos, acabou produzindo imagens totalmente absurdas: soldados nazis­tas negros (era absolutamente necessário que no Exército alemão houvesse “diversidade”!), pais fundadores dos Estados Unidos asiáticos, mulheres ne­gras astrofísicas como figuras importantes no século XVII etc..

5. A questão de saber se serão dotadas com elas, se algum dia conseguire­mos criar uma IA forte, será assunto de todo um capítulo.

6. “Alucinação” é o termo que os especialistas em informática usam para descrever os erros cometidos pela IA, por exemplo, as falsas citações, os er­ros nas fontes, e até a invenção pura e simples de realidades ou de fontes inexistentes…” 

7. Sobretudo quando são usadas as versões mais recentes do “FunSearch” do Google DeepMind – o avaliador não apenas elimina as “alucinações” como se mostra muito criativo no plano científico.

8. Sobre os excessos antidemocráticos de certo fundamentalismo verde, cf. meu livro Ecomodernismo: As sete faces da ecologia política (2023).