As crianças na Idade Média

Por: André Miatello

 

A história da infância foi, por muito tempo, um chão que ninguém pisa, um campo inexplorado. A coisa pode ter mudado um pouco, mas o passado das crianças ou as crianças na história ainda seguem bastante negligenciadas. Situadas como sujeitos mudos do passado, as crianças raramente emergem nas fontes históricas senão pelo olhar enviesado e parcial dos adultos. É nesse horizonte de dificuldade e lacunas que o livro As crianças na Idade Média, do historiador Marco Bartoli, ocupa um lugar particular, sobretudo no mercado editorial brasileiro. Publicado originalmente na Itália em 2021, com o título Santa Innocenza: i bambini nel Medioevo, e agora traduzido por Silvana Cobucci Leite para a Editora Vozes, o livro preenche um vazio nos estudos medievais no Brasil e contribui para confrontar preconceitos arraigados sobre a pedagogia, a educação formal e a vida cotidiana na Idade Média.

O volume é aberto por um denso prefácio de Franco Cardini, que situa a criança nos tempos medievais entre dois polos simbólicos: a “impotentia nocendi” (a incapacidade de fazer o mal, confundida com a inocência) e a visão dos Padres da Igreja de que o pequeno seria uma “presa de Satanás”, um ser voraz e indisciplinado. Bartoli, no entanto, evita cair nesses binarismos simplistas. Em sua nota do autor e na introdução, ele estabelece um diálogo rigoroso com a Nouvelle Histoire e a psicostoria, prestando tributo à obra seminal de Philippe Ariès, mas avançando ao tentar resgatar a “voz” das crianças, seja através de memórias autobiográficas de adultos ou do registro de suas práticas cotidianas.

Estruturado de forma cronológica em 19 ensaios de caráter biográfico e temático, o livro conduz o leitor desde o pensamento de Clemente de Alexandria até a maturidade poética de Dante Alighieri. O grande mérito da narrativa de Bartoli é a contextualização dos seus auctores. No capítulo 9, por exemplo, ao tratar de Hermano Contracto (o “paralisado”), o autor apresenta, em minha opinião, um dos relatos mais significativos da obra. Menino com deficiência física, oferecido ao mosteiro de Reichenau, Hermano não apenas superou as barreiras canônicas que impediam a ordenação de homens com deficiência, mas se constituiu como autoridade intelectual, poeta, historiador e possível compositor da célebre oração Salve Rainha. Através desse caso exemplar, Bartoli demonstra que o aprendizado na Idade Média não operava meramente por controle e repressão, mas possibilitava integrações sofisticadas e amplas formas de superação de barreiras sociológicas do tempo.

O capítulo 17 é particularmente instigante. Bartoli explora a Vita de Santa Clara de Montefalco, escrita por Berengário de Saint-Affrique, e localiza nela um momento importante na transformação das sensibilidades sobre a infância. Clara foi uma menina criada em uma comunidade religiosa feminina dirigida por sua irmã, e sua infância transcorreu entre brincadeiras visionárias com o Menino Jesus. Esse caso, para Bartoli, abre a janela de um mundo “encantado”, em que sagrado e profano se confundem no lúdico (p. 223), e permite acompanhar seu amadurecimento religioso quando o Menino Jesus deixa de ser companheiro de jogos para se tornar mestre teológico, na “noite espiritual” que marca a trajetória da menina Clara (p. 227–228). É justamente nessa inflexão que o autor localiza um deslocamento mais amplo: as mulheres passam a ingressar, ainda que mediadas, no campo da escrita e da representação da infância, deixando de ser apenas objeto do relato para se tornarem também fonte e referência de um vocabulário afetivo e simbólico próprio.

Entretanto, como toda obra ambiciosa, o texto de Bartoli permite provocações. Embora seja um profundo conhecedor do movimento franciscano e das penitentes italianas, o autor parece ter silenciado os aspectos mais sombrios da maternidade no período. Exemplos de mulheres religiosas casadas e mães, como os de Margarida de Cortona e Ângela de Foligno, poderiam ter servido de contraponto. Contemporâneas de Clara de Montefalco e de Clara de Assis, ambas viam no amor materno um obstáculo à ascese e chegaram a considerar a morte dos filhos como uma libertação espiritual. Da mesma forma, a ausência de uma análise sobre as confrarias urbanas dedicadas ao socorro das crianças enjeitadas e órfãos em cidades como Florença deixa de fora o drama social do abandono infantil em contextos de crescimento demográfico desordenado.

O livro encerra-se magistralmente com Dante Alighieri. Bartoli examina a tensão entre afeto paterno e dever cívico. O exílio de Dante, que o apartou dos filhos em nome da coerência política, é lido não como indiferença, mas como sofrimento ético profundo. Como sintetiza o autor, o “medo de ter sido um mau pai” em Dante é o reflexo de um senso de responsabilidade que o constitui como homem tanto quanto sua sede de saber (p. 251).

Ricamente ilustrado por longas citações diretas de fontes primárias, o livro permite que o leitor imagine o cotidiano medieval para além das conclusões do historiador. Marco Bartoli entrega uma obra de leitura fácil para o público leigo, mas de profundidade técnica indispensável para o acadêmico. As crianças na Idade Média é, em última análise, um convite para descobrirmos que, sob as espessas camadas de poeira dos séculos, as crianças da Idade Média não foram tão mudas quanto pensávamos; nós é que, por muito tempo, fomos surdos à sua presença.

 


André Miatello é Professor Associado do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais e faz parte do Laboratório de Estudos Medievais - Núcleo UFMG.