A vontade na natureza - Arthur Schopenhauer

Por: Antonio Alves 

 

Após um silêncio de dezessete anos desde a publicação do primeiro tomo de sua obra principal – O mundo como vontade e representação (1818) – Schopenhauer retornou finalmente a publicar uma nova obra: trata-se de A vontade na natureza, que veio a público em 1835, apresentando também um subtítulo nada convencional, porém bastante autoexplicativo, a saber: uma consideração de como a filosofia do autor foi confirmada, desde seu aparecimento, pelas ciências empíricas

A formulação base para a composição deste pequeno, porém muito importante texto do sistema de Schopenhauer, é a ideia – bastante polêmica e controversa para a ciência materialista de nossos dias – de que a física se beneficiaria se concedesse espaço para a metafísica, em especial, a metafísica do próprio autor, que defendia que as ciências empíricas não poderiam, sozinhas, avançar para o alcance da totalidade da verdade de suas investigações, sejam elas quais fossem. “As ciências da natureza”, diz Schopenhauer (2024, p. 39) “na medida em que segue seus próprios caminhos, deve terminar, em todas as suas ramificações, em um ponto no qual suas explicações chegam ao fim: e esse é justamente o metafísico”.

A obra A vontade na natureza tem por objetivo tencionar um diálogo com algumas das áreas da ciência do século XIX, sendo elas, notadamente, a fisiologia e a patologia, a anatomia comparada, a fisiologia vegetal, a astronomia física, o magnetismo animal, etc. Para cumprir com essa tarefa, Schopenhauer expõe as partes mais fundamentais da sua metafísica, que deve muito, especialmente a Platão, Kant e aos textos sagrados emanacionistas do hinduísmo, intitulados Upanishads. Dessa metafísica, destaca-se de modo cardinal a compreensão da vontade como aquela que fundamenta o mundo como representação, isto é, o mundo das aparências e, por conseguinte, a natureza física. Trata-se, portanto, de uma filosofia essencialista que enxerga um mistério e uma essencial por trás da existência dos animais, das plantas e também, é claro, por trás da existência dos seres humanos. É da vontade cosmológica e inconsciente que tudo emana e se manifesta. E é a partir dessa ideia fundamental que Schopenhauer quis, com essa obra, averiguar a física e a ciência da natureza.

A afinidade e o interesse de Schopenhauer pelas ciências naturais não deve ser encarada como nova a partir da composição de A vontade na natureza. Entre os anos 1809 e 1811, quando foi aluno de medicina na Universidade de Götting, ele já teve contato com o fisiólogo Johann Friedrich Blumenbach e foi fortemente atraído pelas suas palestras. Além disso, devemos nos lembrar que sua segunda obra publicada, aquela que antecede O mundo como vontade e representação, intitulada Sobre a visão e as cores (1816), pode ser considerada como uma mescla entre estudos filosóficos e fisiológicos. 

O interesse de Schopenhauer pela ciência da natureza e pelas mais inovadoras descobertas fisiológicas e anatômicas de seu tempo, não era, portanto, esporádica ou apenas para cumprir com o objetivo de harmonizar sua metafísica; ao contrário disso, o filósofo era realmente atento aos principais avanços da ciência de sua época e os estudos fisiológicos acompanharam sua vida intelectual do início ao fim. Curiosamente, em seu espólio foram contados exatamente o impressionante número de 196 livros de ciências naturais, um número maior até que os livros sobre literatura alemã (171), muito maior do que os de literatura grega e latina (125) e de temas relativos ao pensamento oriental (124), perdendo, portanto, apenas para a quantidade de livros de filosofia (612).

Para finalizar, resta dizer que A vontade na natureza, em linhas gerais, trata-se de uma das obras mais esclarecedoras para compreensão do sistema metafísico de Schopenhauer. O leitor pode, através dela, compreender mais profundamente algumas das principais reflexões anteriormente expressas em O mundo como vontade e representação, sendo elas, por exemplo, as diferentes formas de causalidade, nomeadas causas em sentido estrito, estímulos e motivos; a compreensão a respeito dos movimentos involuntários do corpo e em como esses são interessantes para refletir sobre a irracionalidade da vontade; os diferentes graus de complexidade da manifestação da vontade; a significação das noções de cognição, arbítrio e consciência. A obra é, sem dúvida, indispensável para os estudantes de Schopenhauer.

 

 


Antonio Alves é mestre em filosofia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atualmente doutorando pela mesma instituição com a temática da filosofia da natureza de Schopenhauer e sua intersecção com o evolucionismo de Darwin. Autor do livro “A liberdade intelectual em Schopenhauer” (Editora Dialética) e professor de filosofia pela UniCesumar.