A Mulher Sábia - Expressão simbólica de uma etapa madura da psique feminina
Por: Adelaide de Faria Pimenta, PhD
O tema escolhido por Ingrid Riedel, a Mulher Sábia, cumpre uma necessária contraposição ao arquétipo do Velho Sábio, bastante conhecido na Psicologia Analítica. A sabedoria tem sido frequentemente representada por figuras masculinas como o mestre, o velho, o conselheiro, o guia espiritual, o mago. A autora volta seu olhar para as diferentes manifestações da sabedoria feminina presentes nos contos de fadas, nos mitos, nas tradições religiosas, nos sonhos e nas experiências de homens e mulheres contemporâneos.
A Mulher Sábia apresenta características próprias em relação à figura arquetípica do Velho Sábio. Ao longo do livro, Ingrid Riedel mostra suas diferentes funções, relacionadas aos processos da vida, à natureza, ao corpo, ao amor, à sexualidade, à cura, ao destino e à morte. Sua sabedoria está relacionada à experiência e à capacidade de entrar em contato com as dimensões mais profundas da psique.
É principalmente por meio dos contos de fadas que a autora se aproxima desse arquétipo. Para desenvolver o tema, Riedel escolhe dois contos dos irmãos Grimm que, segundo a autora, são os únicos nos quais a sábia anciã é claramente apresentada como uma “mulher sábia”: A guardadora de gansos junto ao poço e A sereia na lagoa.
A guardadora de gansos junto ao poço conta a história de uma princesa expulsa pelo pai e acolhida por uma velha que vive isolada e é considerada feiticeira. Sob seus cuidados, a jovem percorre um período de transformação até que sua verdadeira identidade seja revelada. A velha desempenha uma função decisiva nesse processo, conduzindo os acontecimentos que possibilitam o reencontro da jovem, agora transformada, com sua família e o início de uma nova etapa de sua vida. Nesse conto, a figura da Sábia Anciã ganha especial importância, surgindo como aquela que conhece o caminho e acompanha os processos de iniciação, mas também como a mulher que aconselha, cura, protege e favorece processos de transformação.
Em A sereia na lagoa, essa dinâmica aparece de maneira bastante significativa. A sereia representa uma dimensão do feminino ligada às profundezas do inconsciente, com seu poder de fascinação e também seus perigos de aprisionamento e morte. O conto narra a história do filho de um moleiro, prometido ainda antes de nascer a uma sereia e, já adulto e casado, levado por ela para as profundezas da lagoa. Sua mulher procura uma Sábia Anciã, que lhe entrega três objetos de ouro para ajudá-la a recuperar o marido. Depois de novas provações e da separação do casal, ambos percorrem caminhos de transformação até conseguirem se reencontrar. Em contraposição à sereia, a Sábia Anciã orienta a mulher e lhe oferece os instrumentos necessários, enquanto cabe à própria mulher realizar a experiência.
A recuperação do marido desencadeia um processo de transformação que envolve os dois personagens. Homem e mulher precisam percorrer seus próprios caminhos antes de poderem se reencontrar. O caçador, que antes perseguia e matava os animais, torna-se pastor e aprende a cuidar deles. A mulher também segue seu próprio caminho e desenvolve maior independência. O reencontro acontece depois da transformação de ambos.
Ao longo do livro, a Mulher Sábia aparece ainda sob outras formas. No terceiro capítulo “Pedinte – curadora – vidente: Formas de aparecimento e encontro da sábia anciã no conto de fadas”, Riedel explora diferentes maneiras pelas quais essa figura pode se apresentar, inclusive como a “avó do diabo”. Essa última figura é particularmente interessante porque mostra a capacidade da Sábia Anciã de lidar também com aspectos rejeitados ou temidos. Riedel considera que pode existir algo vital no que foi demonizado, algo necessário à vida e à cura.
Para compreender a amplitude dessa figura, a autora busca os antecedentes histórico-religiosos da sábia anciã. A Sra. Holle, Perchta, Freya e outras antigas figuras femininas da tradição germânica reúnem características que posteriormente aparecem separadas em diferentes personagens. Nelas estão presentes aspectos relacionados aos ciclos de vida e de morte, à fertilidade, à sexualidade, à maternidade, à cura, ao destino e ao conhecimento.
Riedel apresenta, assim, diferentes funções da Mulher Sábia. Por exemplo, ela pode ser sacerdotisa e visionária, guia de iniciação, doula, serva de Eros nas questões do amor e curandeira. Sua sabedoria abrange a experiência, a percepção dos ritmos da vida e da natureza, a capacidade de reconhecer o momento adequado e de acompanhar os processos de transformação.
Na parte final do livro, a autora se volta para “a mulher sábia em nós”. A figura, antes observada nos contos, nos mitos e nas antigas tradições religiosas, passa a ser considerada também nos sonhos e nas experiências de mulheres e homens contemporâneos. Riedel apresenta a imaginação como uma possibilidade de estabelecer um diálogo com essa figura interior. Aborda também a constelação desse arquétipo, tanto na própria pessoa durante o processo de envelhecimento quanto na relação com pessoas idosas.
Esse contato requer uma relação consciente com a imagem arquetípica, preservando a necessária diferenciação entre o eu e o arquétipo. A autora chama a atenção para o risco de inflação decorrente da identificação com uma imagem arquetípica e também para sua projeção sobre uma pessoa concreta. A proposta é estabelecer uma relação consciente com essa imagem e com aquilo que ela pode representar na psique.
A discussão sobre a Mulher Sábia conduz ainda à relação entre sabedoria e velhice. Para Riedel, a sabedoria na velhice depende da maneira como as experiências acumuladas ao longo da vida são elaboradas. A velhice, por si só, não representa sabedoria. A experiência de vida e o conhecimento adquirido podem contribuir para seu desenvolvimento, juntamente com a capacidade de lidar com as contradições e os limites próprios da existência.
Nesse ponto, a autora aproxima a perspectiva da Psicologia Analítica de estudos contemporâneos sobre a sabedoria. São apresentadas pesquisas que procuram compreendê-la em sua relação com a experiência de vida, a capacidade de lidar com situações complexas, a relativização das próprias certezas e o reconhecimento dos limites do conhecimento. A idade pode favorecer esse processo, enquanto a elaboração das experiências vividas participa do desenvolvimento da sabedoria.
A riqueza das amplificações propostas por Riedel convida o leitor junguiano a refletir também sobre algumas de suas interpretações simbólicas, especialmente aquelas em que a dimensão sexual adquire maior importância. Nesses momentos, outras leituras também são possíveis, considerando que, na Psicologia Analítica, o símbolo permanece aberto a diferentes possibilidades de interpretação.
Ao trazer a Mulher Sábia para o primeiro plano, Ingrid Riedel chama a atenção para uma personificação feminina da sabedoria que recebeu menos destaque na Psicologia Analítica. A imagem apresentada no livro representa uma sabedoria constituída pela experiência, pela capacidade de escuta, pelo discernimento, pelo reconhecimento dos próprios limites e pela abertura para aquilo que ainda se desconhece.
A contribuição do livro está também em aproximar essa antiga imagem arquetípica da experiência psíquica contemporânea. Presente nos contos, nos mitos e nas tradições religiosas, a Mulher Sábia pode ser reconhecida também no mundo interior. O contato consciente com essa imagem pode favorecer o acesso a recursos da própria psique e contribuir para os processos de transformação e individuação.
As diferentes manifestações da Mulher Sábia apresentadas por Riedel deixam elementos que merecem ser aprofundados, como o que caracteriza especificamente essa imagem arquetípica da sabedoria e o que diferencia o arquétipo da Sábia Anciã do arquétipo do Velho Sábio. A autora oferece, portanto, uma base importante para essa reflexão e abre caminho para novos estudos sobre a Mulher Sábia na Psicologia Analítica.
Adelaide de Faria Pimenta, PhD, é a atual Presidente da Associação Junguiana do Brasil – AJB (gestão 2026-2028). Analista junguiana didata do Instituto C.G. Jung de MG - ICGJMG, filiado à AJB e à International Association for Analytical Psychology – IAAP. Ex-Diretora Financeira da AJB (gestão 2020-2022). Ex-Presidente do ICGJMG (gestão 2020-2023). Ex-Diretora Financeira do ICGJMG (gestão 2017-2019).
Doutora e Mestra em Ciências da Religião (PUC Minas) – bolsista CAPES, com a tese Imortalidade e Paraíso Tecnodigitais na Terra: milenarismo judaico-cristão e Transumanismo, tendo como orientador o Professor Dr. Rodrigo Coppe Caldeira, defendida em 27 de junho de 2025, recebendo Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Teses de 2026. Membro do corpo de Editores da Revista Interações, do PPGCR da PUC Minas. Psicóloga pela PUC Minas. Especialista em Psicologia Analítica pelo IEC-PUC Minas.Especialista na Técnica da Imaginação Ativa pelo ICHTHYS Instituto de Psicologia Analítica (Curitiba, PR). Autora do livro Jung e a Imaginação Ativa: das vivências infantis à construção de uma teoria, Edição bilíngue Português e Espanhol (Ichthys, 2022), bem como de artigos em livros e em revistas. Professora de cursos de formação de analistas junguianos, pós-graduações e grupos de estudo de Psicologia Analítica. Trabalha em consultório particular como analista junguiana, terapeuta e orientadora vocacional, para adultos e adolescentes.
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