A era da ansiedade - Discursos do medo no império das emoções

Discurso e sensibilidades
Palavras, poderes e paixões na era da ansiedade

   

A ansiedade é um mal-estar sentido em nossas mentes e em nossos corpos. Uma de suas facetas mais essenciais é o medo do medo. Conhecemos mais ou menos bem essas características, mas algumas de suas causas e de suas variações, de seu aumento e de sua superação são ainda pouco conhecidas. Curar ou controlar esses e outros sofrimentos psíquicos e somáticos requer terapias e, eventualmente, medicação. Porém, há outros recursos que podem se tornar valiosas ajudas nesse processo e que costumam ser praticamente desconhecidos da maioria de nós.

Entre tais recursos, constam o conhecimento histórico da sociedade e a abordagem discursiva da linguagem. Com um melhor conhecimento dos processos históricos e das relações sociais, aprendemos que, diferentemente do que se costuma imaginar, nossas sensações e sentimentos se formam e se transformam no tempo, surgem e variam no espaço. Essas formações, transformações, surgimentos e variações de nossas sensibilidades são determinadas em larga medida pelas metamorfoses porque passam sociedades e culturas e pelas relações entre classes, grupos e sujeitos sociais em cada uma delas. Em suma, as emoções não são universais, porque têm uma história. A consciência de que estamos diante de uma contingência histórica é fundamental para sabermos que nossos sentimentos podem ser atenuados, incrementados, modificados e até eliminados.

Associada a esse conhecimento, a abordagem discursiva da linguagem nos ensina a examinar as coisas ditas, considerando sua condição rarefeita e seu poder constituinte. Diante de tudo aquilo que poderia ser dito, de acordo com a língua e com a lógica, o que efetivamente dizemos é bem pouca coisa. Além de fatores subjetivos, há aqui razões históricas e sociais para que a grande potência do dizível se converta no ato rarefeito do que é dito. Essa relativa escassez discursiva contrasta com ou, mais justamente, concentra a força do discurso, porque ele não só se refere aos seres, coisas e fenômenos de que fala, antes, ele os constitui no próprio ato de fala. Desse modo, não há excesso em se afirmar que a história, a sociedade e o discurso constituem nossas emoções.

Por sua vez, não há discurso sem afetos, assim como não há sentidos nem sujeitos sem sensibilidades. Apesar dessa onipresença da dimensão sensível em seu objeto, durante décadas a Análise do discurso concebeu os textos como se eles fossem elementos de significação, destituídos de sentimentos, como se fossem dados produzidos e recebidos fora de partilhas materiais da sensibilidade. Os inegáveis avanços dos estudos discursivos prosseguiram praticamente sem contemplar as relações entre os discursos, as sensações e os afetos, que eram e ainda são contornadas ou ignoradas, em nome i) da identificação das posições ideológicas dos enunciadores, ii) da descrição e interpretação de formas e recursos linguísticos dos enunciados e iii) da apreensão de seus efeitos de sentido.

A condição sensível da discursividade ainda consiste numa espécie de ponto cego da Análise do discurso. A era da ansiedade: discursos do medo no império das emoções contribui decisivamente para mudar esse cenário. Para tanto, a obra articula Análise do discurso e História das sensibilidades e avança a ideia de que as percepções sensíveis e os sentimentos não se reduzem a fatos textuais isolados. Além disso, eles não se limitam a fenômenos da natureza nem são elementos invariáveis e universais. Enfim, sensações e afetos não brotam exclusivamente em cada pessoa nem estão circunscritos a relações interpessoais, fora da história e da sociedade.

Porque os discursos controlam o que pensamos, dizemos e sentimos, eles formam e transformam os sentidos e os sentimentos partilhados pelos sujeitos de distintas classes e grupos de uma sociedade. Partindo desse pressuposto, A era da ansiedade examina a predominante passagem dos discursos sólidos aos discursos líquidos e seus impactos em nossas paixões e percepções. Analisa também a produção e a proliferação de discursos do medo e da ansiedade na mídia. Estuda ainda a construção discursiva do medo de falar em público, suas conservações e modificações até nossos dias. E, finalmente, investiga a constituição social e institucional de silenciamentos, sentidos e subjetividades na fala de sujeitos, que o poder psiquiátrico tentou reduzir à condição alienada.

Por meio de suas reflexões e análises, Jean-Jacques Courtine e Carlos Piovezani mostram como as palavras, os poderes e as paixões de opressores conseguem provocar sofrimentos e instituir dominações, a mesma forma como minam resistências, revoltas e revoluções de oprimidos. Sua obra é um precioso auxílio para compreendermos os motivos e os modos pelos quais discriminações, exclusões e violências são aceitas, difundidas e mesmo exaltadas, inclusive por quem se torna suas vítimas. A compreensão crítica e a análise minuciosa desse e de fenômenos semelhantes dos discursos e das sensibilidades é a contribuição fundamental que leitoras e leitores encontrarão em cada um de seus capítulos.

 


Jean-Jacques Courtine é professor emérito da Universidade Sorbonne Nouvelle e da Universidade da Califórnia. Foi professor visitante de História das emoções na Queen Mary Universidade de Londres e catedrático de Estudos europeus da Universidade de Auckland. Ministrou cursos e proferiu conferências em muitas e prestigiadas instituições de vários outros países e foi ainda um dos principais integrantes do grupo de Michel Pêcheux, que fundou a Análise do discurso na França. Entre outras de suas publicações, destacam-se as seguintes, publicadas pela Vozes: História do corpo (3 vols.), História da virilidade (3 vols.), Decifrar o corpo: pensar com Foucault, História da fala pública, História do rosto e História das emoções (3 vols.). Além dessas obras, Courtine é ainda autor de Análise do discurso político (EdUFSCar), um dos maiores clássicos da Análise do discurso.

 

Carlos Piovezani é professor associado da Universidade Federal de São Carlos, pesquisador do CNPq e coordenador do Laboratório de Estudos do Discurso (Labor/UFSCar). Foi professor convidado na EHESS/Paris e professor visitante na Universidade de Buenos Aires. Entre suas publicações, destacam-se A voz do povo: uma longa história de discriminações (Vozes), A linguagem fascista (Hedra), A fala feminina: silenciamentos e resistências (Jandaíra), O discurso e as emoções (Parábola), Discurso e (pós)verdade (Parábola), Le discours et le texte: Saussure en héritage (L’Harmattan), História da fala pública (Vozes), Presenças de Foucault na Análise do discurso (EdUFSCar), Legados de Michel Pêcheux (Contexto) e Verbo, corpo e voz (Editora Unesp).