Antimanual das Religiões


Por: Waldney de Souza Rodrigues Costa

Antimanuais estão por toda parte. Os mais conhecidos em língua portuguesa são o Antimanual do Mau Historiador, de Carlos Aguirre Rojas, e o Antimanual de Criminologia, escrito por Solo de Carvalho; mas há também o Antimanual de Gestão, organizado por Valquíria Padilha, o Antimanual de Jornalismo e Comunicação, de Antonio Cláudio Brasil, e o Antimanual de Direito e Arte, organizado por Marcílio França Filho, Geilson Leite e Rodolfo Pamplona Filho. Era questão de tempo até ganharmos um dedicado às religiões.

Mas se manuais são textos encadernados com orientações gerais que servem de guia para uma tarefa ou diretriz para uma disciplina, o que seria um antimanual? Por analogia, podemos deduzir um texto contra uma tarefa ou disciplina, algo como um manual do que não fazer, do que não pensar. É mais ou menos por esse caminho que seguem os citados anteriormente e também o Antimanual das Religiões de Patrick Banon, publicado em 2018 na França e traduzido para o português em 2022. Trata-se de informações e descrições cujo conjunto compõe uma espécie de guia de como não pensar as religiões.

Antimanual das religiões
Antimanual das religiões

Patrick Banon é fundador do Institut des Sciences de la Diversité (Instituto de Ciências da Diversidade) e pesquisador associado da instância responsável por investigações em Gestão, Diversidade e Coesão Social do Mestrado em Gestão Intercultural da Université Paris-Dauphine, uma universidade reconhecida por seu ensino em finanças e estratégia empresarial. Tem atuado como consultor empresarial em questões de gestão na sua interface com temas como igualdade de gênero, diversidade religiosa, secularismo, relações interculturais… Esses também são os temas aos quais dedica artigos e livros. As obras já conhecidas no Brasil são Para Conhecer Melhor as Religiões e Para Conhecer Melhor os Tabus e as Proibições, da Editora Claro Enigma. Chega agora ao Brasil, através da Editora Vozes, um texto dentro desse escopo, mas especialmente dedicado a combater contraverdades em matéria de religião.

E o que são contraverdades? Ora, na era da disseminação de Fake News pelas mídias sociais, talvez a melhor forma de explicar seja com uma metáfora advinda dos smartphones. Sabe quando começamos a escrever algo no celular e o dicionário automático começa a nos sugerir palavras ou até mesmo inserir algumas, muitas vezes nos fazendo dizer algo diferente da nossa intenção inicial? Contraverdades são como esse recurso autocompletar. Quando começamos a pensar sobre um assunto, elas logo se oferecem como atalhos para reduzir o esforço para classificar a enorme quantidade de dados que recebemos. É assim que muitas vezes nos induzem a tirar conclusões precipitadas, baseadas em estereótipos e preconceitos. Não nascem de mentiras que podem ser desmontadas, mas de informações truncadas ou incompletas que são de mais fácil acesso do que a complexa verdade. Sendo assim, mais do que nos fornecer afirmações verdadeiras contra afirmações mentirosas, ao combater as contraverdades, o autor quer “convidar cada um a se libertar do pensamento pronto” (p. 12).

Temos muitas “formas prontas de pensar” as religiões. No seu antimanual, Patrick Banon se encarrega de combater principalmente aquelas que geram desconfiança para com a laicidade, antissemitismo, sentimento anticristão e islamofobia. Escapar desses quatro “pensamentos prontos” ao mesmo tempo não é uma tarefa simples, mas o autor aposta que é possível. Por isso faz uma seleção de quarenta contraverdades, organizadas em quatro conjuntos de equívocos: onze sobre o religioso (1), oito sobre o judaísmo (2), dez sobre o cristianismo (3) e onze sobre o Islã (4). São os quatro capítulos do livro.  Estão claramente ligados às formas de pensar e sentir a serem combatidas.

Embora os equívocos sejam variados, em cada capítulo é possível perceber a predominância de alguns temas. No primeiro, dedicado às religiões em geral, chamam a atenção as contraverdades a respeito da secularização. E a laicidade, mesmo que também esteja presente no capítulo dedicado ao judaísmo e no capítulo dedicado ao Islã, acaba assumindo inicialmente um lugar mais central. Somos convidados a repensar impressões como as de que o mundo é cada vez menos religioso e de que a laicidade é um escudo contra as religiões, em uma espécie de síntese do que o autor desenvolveu em livros anteriores sobre o tema.

O segundo capítulo é dedicado às contraverdades mais comuns do judaísmo. Nele é mais recorrente o tema dos costumes. O autor enfrenta assuntos como circuncisão, uso do quipá e consumo de carne de porco. É um caminho bem diferente do adotado nos capítulos seguintes, que são mais centrados em figuras específicas. O capítulo do cristianismo é centrado em Jesus e o do Islã em Maomé. Problemas a respeito da própria existência do nazareno, a morte na cruz, a circuncisão e o idioma que falava são tratados no terceiro capítulo que, em alguns trechos, lembra um pouco o livro Jésus, La biographie Non Autorisée (Jesus, A Biografia Não Autorizada) que o autor publicou em francês e ainda segue sem tradução. Já o último capítulo enfrenta questões em torno da ida de Maomé para Jerusalém, a autoria do Corão, a possibilidade de representação do profeta, entre outras. É mais diversificado que o anterior, pois a centralidade de Maomé é dividida com a dos próprios muçulmanos, que muitas vezes são tomados como terroristas ou confundidos com árabes.

Além desses temas que percebi como mais centrais em cada capítulo, há várias outras contraverdades peculiares. É necessário proibir símbolos religiosos nas empresas? Judeus têm dinheiro? Uma mulher se passando por homem foi eleita Papa? O Islã está se tornando a religião mais seguida do mundo? São exemplos das questões mais avulsas que o leitor encontrará em discussão no livro.

Em todo caso, entre as contraverdades mais centrais e as mais avulsas, percebi a recorrência de dois aspectos. O primeiro é que muito do que se constitui como contraverdade, “pensamento pronto”, é uma espécie de exagero, caricatura. Tem alguma base real, mas superestimada. Quando não se está acostumado com a convivência com muçulmanos, qualquer grupo assim identificado é percebido como sendo bem mais numeroso do que é. São mecanismos desse tipo que geram percepções equivocadas da realidade. E o segundo aspecto recorrente no livro é a presença da globalização em meio aos argumentos do autor. Ela é tomada como um pano de fundo através do qual surgem as contraverdades, pois culturas desterritorializadas geram uma diversidade de tradições convivendo em um mesmo espaço geográfico. Costumo dizer que pluralismo é bom, mas dá trabalho. O caminho do “pensamento pronto” sempre será mais fácil em um ambiente que nos desafia a todo momento com a difícil estabilização de uma moral coletiva, assim como de identidades individuais, cada vez mais voláteis.

Em um mundo assim, é útil manter um Antimanual das Religiões à mão. Que pena o livro se deter às tradições abraâmicas, pois também são muito recorrentes contraverdades a respeito das tradições asiáticas. Budistas são sempre serenos e nunca entram em guerra? Indianos têm as vacas como animal sagrado? Não há religião na China comunista? Ficamos na expectativa de um antimanual que toque em questões como essas. O caminho foi aberto por Patrick Banon.  Ao combater o medo dos muçulmanos, o antissemitismo, o sentimento anticristão e a desconfiança da laicidade, o autor forneceu uma grande contribuição, tanto para o público geral não iniciado, quanto para quem se dedica à pesquisa sobre as religiões e o religioso, que em muitos casos acaba se dedicando a alguma tradição em particular e caindo no “pensamento pronto” sobre outras. Vale o aviso do autor: “contraverdades concernentes às religiões propagam-se mais rapidamente do que as certezas. Cuidado com os equívocos!” (p. 9). Ler o antimanual pode ser um importante passo em direção a esse cuidado.

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Waldney de Souza Rodrigues Costa é professor e chefe do Departamento de Ciências da Religião da UERN. Doutor e mestre em Ciência da Religião pela UFJF. E-mail: professordney@gmail.com