Título Destaque – O desaparecimento dos rituais


Por: Renan S. Carletti

O livro “Desaparecimento dos Rituais”, de Byung-Chul Han é um convite. Assim como suas demais obras, sua proposta é nos convidar a nos apropriarmos de nosso cotidiano, nossos hábitos, nosso agir automático e acelerado do dia a dia. Desta vez, Han nos convida a olhar para a importância dos rituais como formas de propiciar ritmo e continuidade a nossa experiência com o mundo. Para ele, os rituais são como melodias temporais às quais, sem elas, nos perdemos na dança da vida.

De forma geral, os rituais estão presentes nas religiões, nas festividades, nos jogos, na vida comunitária e no luto. Eles oferecem pausas, reflexões, comemorações e estabilizações como formas de conclusão de nosso viver cotidiano. Em contraposição clara a estas posturas, está o nosso uso atual das redes sociais e o tempo que passamos em nossos celulares. Para Han, a temporalidade digital e o uso do smartphone impede uma relação cuidadosa com a vida. Ao invés disso, ela é consumida de forma exaustiva por meio de mensagens, redes sociais, fotos, vídeos e dancinhas do Tik-Tok…

Para o autor sul-coreanno, não há relação nesses formatos de consumo, mas um frenesi diante da emoção e consigo mesmo. Diferente disso, o ritual nos convida para o viver em comunidade com os outros e com os objetos que compõem o mundo. Os rituais tecem um enlace simbólico entre pessoas, coisas e espaços. A partir disso, eles são capazes de nos envolver em uma teia de significados que possibilita e sustenta nosso existir comum. Tal como na cerimônia japonesa do chá em que os gestos ordenam a relação com o ritual e o “sujeito individual” é colocado em segundo plano.

Seguindo essa perspectiva, o autor nos alerta sobre a importância dos rituais nos possibilitarem um “esquecimento de si”, ou seja, é no ritual que podemos deixar de lado o frisson narcísico de nossas emoções para poder experimentar uma forma de transcendência. A experiência lúdica, tal como descrita por Huizinga, nos possibilitam o que Han chama de percepção simbólica proporcionada pelo ritual, diferente da percepção serial oferecida pela dinâmica digital atual. Um exemplo claro dessa forma de percepção é a relação com as séries, o próprio ato de “maratonar séries” é serialização da sensibilidade que aguarda, em uma espécie de ânsia, pelo próximo episódio.

Essa busca por sensações seriadas que anseiam um futuro, evita e impede a experiência de repetição. A nova temporada, o novo lançamento, a nova atualização; a novidade é a tônica que nos diz para onde devemos caminhar amanhã. Na contramão desse caminho, o ritual propõe uma repetição. Uma repetição que promove intensidade, nas palavras de Han. Ao trazer Kierkegaard para sua discussão, ele nos lembra que repetição e lembrança formam uma espécie de laço em que passado, presente e futuro podem ser entrelaçados e vivenciados de forma significativa.

Outro diálogo na obra de Han é com o sociólogo Hartmut Rosa em que a noção de ressonância descrita por Rosa abrange a experiência promovida pelo ritual em comunidade. A ressonância convoca a comunidade para viver como um corpo único, experiências como o luto e as festividades. Aqui, não há lugar para o sujeito psicologizado que tem como centro de si, suas próprias emoções e sua fugacidade. Han difere a ressonância da tão badalada “empatia”. A demanda por “mais empatia, por favor” atende mais à fins econômicos do que de aproximação e ressonância com o outro. É no abalo e destruição da experiência comunitária e ritual que a empatia surge como imperativo da emoção individual. Ela surge como positividade diante de um “comover-se” diante do outro.

Han também apresenta a importância das noções de “habitar” e “lugar” como formas de localizar o ritual. O deslocamento das experiências para a mediação digital e da globalização rompem com o significado e os sentidos de habitar um espaço. Para isso, ele ressalta a importância de uma comunidade que pode permanecer em silêncio e não necessita se submeter a uma tagarelice constante. Assim como o silêncio, também as festividades são uma forma de ritual de nos apropriarmos, comunitariamente, de um espaço.

Festas e silêncios são compassos de uma forma narrativa de viver. A narração organiza um corpo social e distingue os tempos sagrado e profano. Ambos ordenam uma experiência de cuidado e ação no mundo. Opostamente, hoje, temos o tempo do capitalismo em que o império dos dados dita as regras. Diante de sua previsibilidade e transparência não há alternância, não há jogo, não há narração, há somente uma lei: a da produção e do trabalho. A própria leitura do livro é uma pausa diante dessa aceleração desgovernada.

De forma geral, Han nos convida para uma descentralização de si em nosso cotidiano. Ele aponta que esse eu inflado de emoções, psicologias e narcisismos deságua em uma negação do valor da experiência ritual e comunitária. Revisitando os temas de seus livros anteriores, o autor segue um caminho de reflexão e convocação simultâneos para uma transformação de nosso cotidiano. Junto a isso, o autor nos apresenta uma série de referências dentro da sociologia, literatura, cinema e filosofia que possibilitam aprofundar os temas apresentados. Como uma espécie de ciclo, o convite de Han é, simultaneamente, uma lembrança. Um ato de recordação da sacralidade da vida.

Renan S. Carletti é Psicólogo e Professor Universitário. Doutorando em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da USP (IP-USP). E-mail para contato: carletti.rs@gmail.com.

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