Título Destaque – Campos das ciências sociais


Figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal

Rita de Cássia Fazzi e Jair Araújo de Lima (orgs.)

Você tem interesse em conhecer as ciências sociais? Por que será que elas estão sendo tão atacadas no Brasil atual, inclusive pelo grupo ocupante do poder?  O livro Campos das ciências sociais: figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal traz boas respostas, embora não se proponha a enfrentar diretamente essa última questão. Ele mostra que os fenômenos sociais de nossa época não admitem as simplificações nem os dogmas tão ao gosto daqueles que se arvoram a prescrever soluções baseadas em ideias políticas e religiosas antiquadas. As ciências sociais apresentadas no livro deixam claras as limitações e as inconsistências desses discursos. Elas são, em sua complexidade, de fato, inacessíveis às mentalidades ideológicas, sejam “de direita” ou “de esquerda”, pois foi exatamente pelo distanciamento crítico e metódico das ideologias, através da pesquisa empírica rigorosa, que tais ciências se constituíram e se desenvolveram. Elas foram capazes de promover a reflexividade nas sociedades modernas, de prover diagnósticos acurados de problemas sociais e de propor soluções criativas para tais problemas, embora, certamente, muitas questões que elas próprias formularam permaneçam sem resposta. Ainda ecoa atualmente, por exemplo, uma pergunta feita por Charles Wright Mills há sessenta anos: “Por que predomina entre os homens (e mulheres) do poder, hoje, uma ignorância tão alta e irresponsável?” (A imaginação sociológica)

No Brasil, como no livro, convencionou-se limitar as ciências sociais às disciplinas da sociologia, da antropologia e da ciência política, embora num sentido mais amplo possam-se incluir nelas outras disciplinas empíricas como a economia, a linguística e a psicologia, bem como suas aplicações, como a administração e a pedagogia, além das diversas perspectivas históricas. As ciências sociais em sentido estritose constituíram efetivamente com a emergência das sociedades modernas europeias urbanizadas, do capitalismo e da democracia modernos, como as expressões mais racionais da autoconsciência dessas sociedades, manifestada através das obras dos autores hoje reconhecidos como “clássicos”. No Brasil, as ciências sociais também eclodiram com a modernização de nossa sociedade, a partir da década de 1930 e, desde então, têm contribuído decisivamente para nosso autoconhecimento, para o reconhecimento de nossas limitações e potencialidades enquanto sociedade, bem como para nossa interlocução inteligente com a comunidade internacional.

Esse livro, em 804 páginas, permite perceber o crescimento e o dinamismo das ciências sociais brasileiras em relação aos seus primórdios com os nossos “clássicos” locais, refletindo de um modo abrangente o estágio atual de desenvolvimento das ciências sociais no Brasil e em Portugal, país com quem temos estreitado, cada vez mais, relações acadêmicas nesse campo. Distribuídos pelas diversas regiões do país, os trabalhos reunidos no livro abrangem uma amostra significativa dos muitos temas e problemas a que se dedicam os cientistas sociais brasileiros – e alguns portugueses – em dezenas de programas de pós-graduação vinculados a dezenas de instituições universitárias públicas e privadas, em diversos desenhos de pesquisa e de articulação entre os pesquisadores.

Além de nove trabalhos de pesquisa teórica, metateórica e epistemológica, que procuram estabelecer uma interlocução internacional nesse campo dinâmico e fundamental das ciências sociais, o livro traz ainda três trabalhos que discutem os desenhos e os problemas metodológicos de pesquisa nas ciências sociais. Substantivamente, o livro traz doze trabalhos sobre temas tradicionais das ciências sociais, tais como organizações, cultura, educação, trabalho e cidades. Traz ainda treze trabalhos sobre temas emergentes do campo, como capital social, gênero, turismo, meio ambiente, emoções, lazer e esportes, violência e relações internacionais. O livro traz ainda cinco trabalhos que abordam temas como a representação política, a opinião pública, planejamento e políticas públicas.O livro evidencia um processo contínuo de acumulação, retificação e renovação do conhecimento, característico das ciências sociais e mostra um Brasil (e um pouco de Portugal), que a despeito de grandes dificuldades, em tempos de incerteza, é capaz de estudar e pensar a si mesmo com qualidade, em pé de igualdade com a comunidade acadêmica internacional.

A pandemia do corona vírus que a humanidade está enfrentando ressalta o compromisso das ciências sociais com o conhecimento teórico e empírico das sociedades e a atualidade das questões tratadas no livro, acrescidas dos novos desafios evidenciados pela situação do mundo contemporâneo.

Por: Rita Fazzi

 

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