Título Destaque – Louvor à Terra


O filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, tornou-se mundialmente conhecido pelas suas críticas à lógica neoliberal de nossa atual sociedade do desempenho, que faz com que, por iniciativa própria, exploremos a nós mesmos, vivendo uma vida pautada pela produtividade em nome da mera sobrevivência. Nota-se geralmente, no entanto, que, em uma parte considerável de seus livros, Han dedica-se principalmente à crítica de nosso atual modelo de sociedade, apontando seus aspectos degradantes e prejudiciais à existência humana, de modo que se coloca a pergunta sobre como se poderia conceber uma outra maneira de viver, que fosse verdadeiramente livre e permitisse uma boa vida, para além da mera sobrevivência.

Louvor à Terra, porém, é um livro de Han que foge a essa regra e, de fato, não apenas a ela, mas também a várias outras características comuns de seus livros.  De fato, ele pode ser visto como o registro das meditações de Byung-Chul Han no e sobre o seu jardim – um jardim metafísico, que deve florescer por todas as estações do ano, como obra de devoção e louvor à criação divina que seria a própria Terra, fonte dos mistérios que dão sustento à vida. Tais meditações, embora venham certamente, acompanhadas muitas vezes de reflexões críticas sobre a nossa sociedade atual, acabam, ao mesmo tempo, apresentando, de maneira bastante concreta e palpável, a possibilidade de um outro modo de vida, mesmo em meio à nossa sociedade atual. Um modo de vida que, como o próprio nome do livro sugere, envolve o retorno não apenas no discurso, mas sobretudo em atos cotidianos, à Terra, compreendida aqui como o solo literal e metafísico da criação, de onde o outro pode brotar e na qual se pode cuidar do outro ao dar a ele o seu próprio tempo. Outro que toma a forma aqui, naturalmente, das diversas flores e plantas de que Han cuida tão zelosamente em seu jardim, tal como relata, de modo singelo e apaixonado, não apenas na primeira parte de seu livro, organizada na forma de capítulos de modo muito semelhante a suas outras publicações, mas também na segunda parte, escrita na forma de um diário, onde se encontram relatos cronológicos que nos permitem acompanhar o próprio tempo, sim, acompanhar a vida desabrochar em seu jardim.

Aqui, a filosofia de Han é expressa não apenas, nem principalmente pelos seus enunciados explícitos sobre temas já tão conhecidos de sua reflexão – a dissolução da ordem terrena pela ordem digital, a busca pelo tempo do outro como aquele em que se respeita o tempo próprio a cada ser, a crítica à sociedade do desempenho como aquela que remove todo o mistério, toda relação a um outro transcendente e nunca inteiramente decifrável -, mas sobretudo pelo significado de seus gestos de cuidado, dedicação e zelo a cada uma de suas flores, na atenção a seus muitos e singulares nomes e às particularidades de cada uma de suas formas, cores e aromas. Em Louvor à Terra, poderíamos dizer, apoiando-nos em Pierre Hadot, que Han menos descreve, e mais nos mostra sua filosofia como um modo de vida, de fato, como um exercício espiritual de cuidado com o outro. O que, de fato, talvez nos ensine algo importante: se devemos buscar, na filosofia de Han, o seu aspecto propositivo, para além das críticas afiadas e pessimistas de nossa sociedade, talvez devamos buscá-lo não apenas, nem principalmente, em enunciados propositivos por parte do filósofo, mas sobretudo naquilo que, em seus enunciados, sugere ou mostra, sem descrever, uma outra atitude diante de nossa vida, uma outra maneira de lidar com o tempo e, por fim, um outro modo de se dirigir ao outro.


Lucas Nascimento Machado é professor de história da filosofia pela UFRJ, doutor em filosofia pela USP e atual diretor da Associação Latino-Americana de Filosofia Intercultural (ALAFI). Também traduz, pela Editora Vozes, obras de filosofia alemã para o português, de autores como Byung-Chul Han, Markus Gabriel e Dieter Henrich. 

 

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