Karl Marx – Vida e pensamento


Por: Jadir Antunes

Karl Marx - Vida e pensamento
Karl Marx – Vida e pensamento

Escrever a biografia de um autor talvez seja tão complexo quanto traduzir suas obras. Podemos dizer que biografar, tanto quanto traduzir, pode ser um trair, e numa descrição biográfica se trai tanto mais quanto mais se deixa de levar em conta não somente a grafia correta da letra e a descrição verídica dos acontecimentos, numa biografia se trai quando se abstrai, sobretudo, a alma, o espírito, o sentido e a vida efetivamente vivida do biografado, com todas as conquistas, frustrações, alegrias, dores, ironias e tragédias próprias à vida humana.

Traduzida para mais de quinze línguas diferentes, a biografia de David McLellan sobre Karl Marx tem esta singular virtude de não trair e de não abstrair, de descrever o biografado em todas as suas múltiplas facetas humanas, desde o jovem revolucionário republicano e idealista, o jovem hedonista, boêmio, poeta e enamorado, o jovem jornalista soberbo e esgrimista nas palavras que pretendia derrubar o mundo com sua pena, até o velho estoico doente e financeiramente empobrecido que compreendera que para mudar o mundo, e mesmo a vida pessoal, eram necessários mais do que vontade, inteligência, papéis e jornais.

Karl Marx foi um dos mais importantes filósofos e revolucionários da Era Moderna, um gênio do pensamento que soube combinar em suas obras a teoria, abstrata e geral, com a concretude da ação e da intervenção prática sobre a realidade. Conhecia com profundidade as obras de Platão e Aristóteles, dos estoicos e dos epicuristas, de Descartes, Spinosa, Hobbes, Leibniz, Hume, Kant, Locke, Rousseau, Hegel, Stirner, Bauer e Feuerbach, dos materialistas franceses, de Smith e Ricardo e toda a tradição inglesa moderna.

Karl Marx maravilhava-se com as narrativas de Homero e Hesíodo, as quais lia diretamente do grego para suas filhas. Aprendera muito sobre o dinheiro e as mazelas do espírito humano lendo Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, Shakespeare, Balzac e Goethe. Interessava-se pelas mais variadas áreas do conhecimento humano, pela matemática, pela biologia, pela história, filosofia, economia, direito, mecânica, agronomia, dramaturgia, poesia e o evolucionismo de Darwin. Em Londres, foi correspondente internacional escrevendo sobre os grandes acontecimentos políticos de sua época, como a Guerra dos Cipaios na Índia, a Guerra do Ópio na China, a Guerra da Irlanda e a Secessão Americana. Já velho, ocupara-se com o estudo da língua e do czarismo russo.

Se sua vida intelectual era riquíssima e profunda, sua vida material, contudo, era uma tragédia viva, parecendo-se com a vida de tantos personagens literários que estudara. Na juventude foi filósofo, jornalista, editor e escritor. No meio dos acontecimentos revolucionários de meados do século XIX foi elevado a líder revolucionário internacional. Seu nome rapidamente tornou-se uma lenda e um pavor para os governos europeus. O perigo de suas letras logo o levaria a uma vida insegura como apátrida.

Expulso da Alemanha e prometendo não se envolver em assuntos políticos locais, foi aceito como exilado pelo governo inglês e ali na Inglaterra viveu a maior parte de sua vida adulta. Uma vida de miséria e tragédias pessoais. A maior delas, a perda do único filho homem aos cinco anos de idade devido às condições miseráveis da família Marx. Nestas condições, passou grande parte do tempo estudando nas bibliotecas públicas e museus de Londres. Leu os mais diferentes materiais publicados pela cultura inglesa acerca do mundo moderno, especialmente os produzidos por seus economistas.

Da leitura destes materiais surgiu a mais profunda análise e crítica das estruturas econômicas do sistema capitalista. Da vida miserável, da má alimentação, das poucas horas de sono e das longas horas de trabalho sentado veio o adoecimento. A tuberculose, a pneumonia e os furúnculos lentamente lhe roubaram todas as forças. Acostumado à vida vibrante e cheia de energia, obrigou-se a obedecer aos médicos e a repousar durante vários meses antes de retornar ao trabalho.

Nascido em Trier em maio de 1818, cidade interiorana da Prússia medieval, faleceu em Londres em março de 1883, o centro econômico, político e intelectual de sua época. Após conquistar intelectualmente toda a Europa, seu coração parou enquanto repousava tranquilamente em seu sofá da sala velho e rasgado.

Karl Marx conquistou milhares de amigos, admiradores e seguidores. Teve vários inimigos políticos que o combateram, mas nenhum inimigo pessoal. Envelheceu e morreu como um sábio estoico, resignado com o destino pessoal, mas confiante no futuro que poderia se abrir à humanidade com a vitória do socialismo.

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Jadir Antunes é professor de Filosofia da Unioeste PR e co-autor com Hector Benoit do livro O Problema da Crise Capitalista em O Capital de Marx [2016] e autor de Marx e o Fetiche da Mercadoria: Contribuição à Crítica da Metafísica [2018], ambos pela Paco Editorial SP.