Viver quando alguém que amamos morre - Meditações para o luto e a perda

Por: Denise Sanematsu Kato 

 

A maioria de nós, de uma maneira ou de outra, tende a associar a vida à existência de um corpo físico e à possibilidade de estar no mundo a partir desse corpo. Sentimos a presença de uma pessoa, de um ser vivo em nossa vida quando podemos interagir, falar e conviver com esse ser que tem um corpo. E, quando se trata de um ente querido, não basta saber que a pessoa está aí, viva, em algum lugar no mundo – queremos estar perto dela, sentir sua presença na troca de olhares, no tom da voz, no toque da pele, no cheiro, num sorriso. Sem nos darmos conta, nos apegamos não apenas à pessoa, mas à ideia de que ela está naquele corpo e, portanto, uma vez que aquele corpo se desintegre, ela deixará de existir. Não é à toa que a morte é tão assustadora.

O Mestre Zen Thich Nhat Hanh, autor deste livro, é um líder espiritual, poeta e pacifista reverenciado em todo o mundo. Concebeu um tipo de Budismo Engajado capaz de responder diretamente às necessidades da humanidade, fazendo de sua própria vida sua maior mensagem. Também é conhecido pela capacidade extraordinária de transmitir ensinamentos complexos de modo acessível ao público leigo. Entre esses temas destacam-se a “atenção plena” (mindfulness) e o interser (interbeing), que se entrelaçam delicadamente neste livro para apresentar os ensinamentos mais profundos de Thich Nhat Hanh sobre luto e perda.

“Viver quando alguém que amamos morre” nos explica o que é “atenção plena” e a importância de cultivá-la para acolher e cuidar do nosso sofrimento e das emoções que surgem no processo de luto (tristeza, medo e raiva, entre outras). O livro intercala textos inspiradores com sugestões de autocuidado (meditações guiadas, exercícios reflexivos, relaxamento). São práticas que nos confortam e nos fortalecem, ajudando-nos também a lidar com o arrependimento, a culpa, e a cultivar a presença no momento. Essa nutrição da plena consciência é fundamental à compreensão do que estamos vivenciando e à transformação das raízes de nossos sentimentos e emoções.

Outro aspecto primoroso do livro é a delicadeza com que se fala da morte. A beleza dos poemas de Thich Nhat Hanh chega como um bálsamo para introduzir o tema da interexistência, do interser:

No momento em que eu morrer,

Tentarei voltar para você

O mais rápido possível. 

Prometo que não demorarei.

Não é verdade que já estou com você,

À medida que morro a cada instante?

Não preciso morrer para voltar para você. 

Não estamos restritos a um corpo, a uma forma com um tempo limitado de vida. O “interser” nos ensina que estamos presentes em todas as formas de vida, nascendo e morrendo a cada instante. À primeira vista, pode parecer estranho e é natural que surja uma certa resistência a tais ideias. No entanto, o livro é um convite para uma nova maneira de ver a morte – e a vida. Se olharmos profundamente, poderemos concordar que “uma nuvem nunca morre”, uma vez que a nuvem se transforma em chuva. 

Muitas pessoas poderiam discordar, alegando que a nuvem morreu (pois desapareceu, já não está no céu) ... Sim, ela não aparece mais na forma de nuvem – mas o fato de se manifestar na forma de chuva não significa que a nuvem deixou de existir:  ela continua existindo, só que em outra forma!

Se nos abrirmos aos poucos para esse novo conceito, poderemos trazer a nuvem para nossa vida diária e perceber que a mesma ideia se aplica ao nosso corpo, aos nossos entes queridos, às árvores, ao mar e a tudo ao nosso redor. Nossa felicidade está na capacidade de compreender a natureza interexistente de tudo o que existe. Na dimensão da interdependência, “vida e morte não são separadas. Elas coexistem e são interligadas. Não podemos ter uma sem a outra, assim como não podemos ter escuridão sem luz – elas se apoiam e se contêm mutuamente.”

Que este livro possa trazer confiança e paz – não apenas aos que estão em luto, mas a todos os seres. Que possamos compreender que cada momento em plena consciência é uma oportunidade de transformação e liberdade, e que nosso encontro com todas as formas de vida é possível a cada instante – aqui, agora. 

 


Denise Sanematsu Kato é formada em Psicologia pela PUC-SP. Recebeu a transmissão para membro da “Ordem do Interser” pelo Mestre Zen Thich Nhat Hanh e é Professora do Dharma na linhagem de mestres da tradição de Plum Village. Trabalha com meditação terapêutica voltada à saúde emocional e com processos de luto/perda.