Mulheres e o mistério da segunda metade da vida

Por: Sonia Maria Bufarah Tommasi

 

“Este livro é dedicado à mulher, que em sua beleza, dignidade e poder criativo, com sua capacidade de abrir mão e vencer de novo, com sua nova atitude relaxada em relação à vida, pela qual as jovens, às vezes, a invejam.”
(Ingrid Riedel)

Por meio de uma escrita envolvente e sensível, Ingrid Riedel instiga a curiosidade, especialmente do público feminino, ao provocar reflexões profundas sobre dimensões físicas, sociais, emocionais e psíquicas da existência.

Logo nas primeiras páginas de Mulheres e o mistério da segunda metade da vida, a autora conduz a leitora a uma reflexão instigante sobre o que, de fato, significa a chamada “segunda metade da vida”, e em que medida ela se diferencia da primeira. A menopausa surge como um marco simbólico e concreto dessa travessia, delineando uma fronteira entre dois tempos de existência.

Nesse processo, a finitude deixa de ser uma ideia distante e passa a se apresentar com maior nitidez, enquanto o corpo feminino atravessa transformações profundas. Riedel compreende a menopausa como um fenômeno biopsicossocial multidimensional, capaz de desencadear mudanças intensas, vividas simultaneamente como perda e libertação. Há, nesse momento, uma tensão entre ruptura e abertura: assusta, mas também emancipa. O tempo ganha novos contornos, torna-se mais precioso, mais consciente, e os valores se reorganizam, permitindo um novo olhar sobre si mesma e sobre a própria trajetória.

Na balança simbólica da metade da vida, somos convidadas a revisitar os caminhos percorridos: reconhecer o que floresceu, elaborar o que não se concretizou e abrir espaço para aquilo que ainda pode nascer. Mais do que projetar o futuro, emerge uma pergunta essencial: quem sou eu após essa jornada?

Diante dessa bagagem, surge também o desafio de ressignificá-la. Nesse movimento, pode-se entrar em contato com um vazio interior que, longe de representar ausência, revela-se como um espaço fértil de transformação. É a partir dele que muitas mulheres iniciam uma busca mais profunda por sentido, voltando-se para a espiritualidade e fortalecendo a conexão consigo mesmas. Como propõe a autora, trata-se de um processo de reconciliar-se consigo mesma, um verdadeiro “casamento interior”.

Riedel convida a compreender os sintomas da menopausa como símbolos expressos pelo corpo, sinais que orientam o caminho para uma nova fase da vida e para a construção de uma nova identidade. A mulher amadurecida, que emerge nesse período, desenvolve uma visão de mundo mais ampla, com menor apego ao material e maior enraizamento em si mesma, sem perder seu centro nos relacionamentos afetivos.

A introspecção e a intuição se aprofundam, conduzindo ao encontro com o mundo interior e despertando o interesse por conhecimentos mais profundos e caminhos alternativos de cuidado. Há, nesse processo, um convite ao desapego de papéis antigos e à reconexão com a própria essência. O corpo deixa de ser visto apenas sob a ótica da perda e passa a ser reconhecido como um mensageiro sábio, que pede escuta, pausa e transformação.

É um tempo de recolhimento fértil, no qual os silêncios se tornam reveladores e as escolhas passam a refletir, com mais autenticidade, aquilo que faz sentido para a alma. Surge, então, uma presença mais consciente, firme e serena, uma mulher que já não busca provar algo ao mundo, mas viver com verdade, propósito e inteireza.

Os sonhos e mitos apresentados ao longo da obra ampliam essa jornada, revelando que não estamos sós, mas pertencemos a um coletivo feminino que atravessa experiências semelhantes. Reconhecer a finitude e elaborar os lutos pelas perdas físicas, emocionais e profissionais não configura um fim, mas um processo de renascimento, um convite para permitir que aflorem a sabedoria, a paciência e a harmonia cultivadas ao longo da vida.

Nesse sentido, o mito de Inanna simboliza de forma profunda essa travessia: a descida ao submundo, o encontro com a própria sombra, representada por Ereshkigal, e a possibilidade de retorno transformado. É ao integrar luz e escuridão que a mulher se torna plena, inteira.

Com essa poderosa imagem simbólica, Ingrid Riedel encerra a jornada proposta em sua obra, deixando ao leitor um convite sensível e transformador:

É na travessia pela própria escuridão que a mulher reencontra sua luz mais inteira e verdadeira. A coragem de descer às próprias profundezas revela uma força transformadora, e este livro é o convite para essa travessia.

 


Sonia Maria Bufarah Tommasi, Psicóloga. Arteterapeuta. Musicoterapeuta. Doutora em ciências da religião.  Mestre em psicologia da saúde. Especialista em psicologia analítica. Autora de livros de Psicologia Analítica, Arteterapia e Ética.